O tema abordado no livro “Impérios na História”, dos autores Francisco Carlos Teixeira da Silva, Ricardo Pereira Cabral e Sidnei J. Munhoz, conceituados professores nas áreas de história contemporânea e moderna, revela a importância de se discutir, fundamentalmente, o que faz ou fez um Estado tornar-se um império e quais as razões de sua crise, decadência ou colapso. A busca por essas respostas é por causa, exatamente, do risco de se repetir o passado e, na construção da nova ordem mundial, sermos tentados a mais uma vez construir um relacionamento entre as nações baseado na força, e não na cooperação e no direito internacional.
A obra procura mostrar, através de exemplos históricos, diversos impérios significativos - Romano, Britânico e a tentativa dos Estados Unidos hoje – e o que há em comum e singular entre eles em cada momento histórico.
Os autores apontam a Guerra Fria como peça-chave para a discussão do livro, já que se trata de um período que marcou profundamente a todos e a conformação da atual ordem mundial. Foi durante essa época que o Brasil se tornou um ator mundial, onde se deu o crescimento econômico e se forjaram as principais concepções de futuro sobre o país. Em plano mundial, é um tempo de grandes riscos – como a Guerra Nuclear – e de grandes enfrentamentos, como em Cuba e Vietnã. Da mesma forma, surgiram durante esse período as vias alternativas, de hippies, até a nova consciência ecológica mundial.
O período pós-Guerra Fria até a eclosão da crise financeira instalada no mundo em 2008, faz o livro “Impérios na História” levantar a questão da busca por um compartilhamento do poder através do retorno da multipolaridade, com uma ordem mundial mais equilibrada, evitando domínio de uma ou duas superpotências. Os autores falam de três modelos de organização política, social e ideológica competitivas: Europa comunitária, Estados Unidos e China popular - as três grandes aranhas da globalização ou os três “centros de poder” – disputando a hegemonia mundial e um lugar mais seguro e privilegiado nesse novo modelo de ordem.
Segundo eles, esses países são os únicos capazes de organizar, em termos globais, redes de fluxos econômicos, financeiros, tecnológicos e, naturalmente, de poder. Com isso, esses três centros de poder serviriam de modelagem para países que formariam ao redor, o chamado “Segundo Mundo”. Países estes, de grande relevância e papel decisivo na Ordem Mundial, tais como a Rússia, Brasil, Índia, Indonésia, Nigéria, África do Sul, Vietnã e Malásia (e mais outros poucos, muito poucos). Esses países e demais componentes do “Segundo Mundo” serão os países-chave do equilíbrio mundial. Ainda assim, Brasil, Rússia e Índia terão um papel central no novo alinhamento multipolar do mundo, por seu peso econômico, demográfico e pelo desenvolvimento de tecnologias específicas – incluindo aí tecnologias verdes.
Outro questionamento do livro é sobre a difícil tarefa para a administração Obama, onde o recém eleito presidente americano terá a seguinte missão: recolocar os Estados Unidos num rumo de crescimento, segurança e relançar a sua liderança mundial. “Os Estados Unidos, embora possam muito no mundo, não podem adequar o mundo aos seus interesses. Cabe em verdade adequar-se a um mundo cada vez mais mutante”, afirma os autores.
De acordo com Francisco Carlos, um dos autores da obra, não é possível afirmar que os impérios deixarão de existir, embora possamos dizer que todos um dia serão derrubados. Alguns serão efêmeros, como o Império Alemão, ou mongol, ou URSS, outros duradouros e civilizatórios como a China Imperial, o Império Britânico ou Romano. A questão hoje remete a capacidade de algum Estado manter-se globalmente como império, o seu custo, e ainda de constituir o império em uma "pax" (uma área de segurança e prosperidade).
Francisco Carlos Teixeira da Silva é professor titular de História Moderna e Contemporânea da Universidade do Brasil/UFRJ, professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército/Eceme/Eb e professor do Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais/UFRJ.
Ricardo Pereira Cabral é mestre em História/Pequisador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente/UFRJ e também professor de História Contemporânea/UGF.
Sidnei J. Munhoz é doutor em História Econômica (USP), professor do Departamento de História e do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Estadual de Maringuá (UEM), do Programa de Pós-graduação em História Comparada (UFRJ) e bolsista de produtividade do CNPq. [Editora Campus- Elsevier | Formato: 21x28 cm | 488 páginas, por R$ 125,00].
O Tecelão dos Tempos: o historiador como artesão das temporalidades
O Tecelão dos Tempos: o historiador como artesão das temporalidades
por: Durval Muniz de Albuquerque Júnior
Professor Titular de Teoria da História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
“Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe este grito que ele e o lance a outro; de outro galo que apanhe o grito que um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos”. (Tecendo a manhã, João Cabral de Melo Neto)
Luandino Vieira: a resistência nos musseques (1962).
Luandino Vieira: a resistência nos musseques (1962).
por:Prof. Rogério Guimarães 1
Resumo: Mais que somente abrigar moradores com baixo nível econômico e social, os musseques luandenses tornaram-se espaços de resistências ao colonialismo português durante o processo de libertação angolano. Por meio do conto Dina da obra Vidas Novas, José Luandino Vieira representou, através da personagem-título, a conscientização e a luta desses habitantes de Luanda.
Palavras-chave: musseque, resistência, José Luandino Vieira.
Abstract: More than only a way to house poor people, the Luanda musseques became places of resistance to the Portuguese colonialism during the process of angolan independence. In the tale Dina, from the book Vidas Novas, José Luandino Vieira represented, through the main character, the acquiring of knowledge and the struggle of the Luanda people.
Key-words: musseque, resistance, José Luandino Vieira
COLLIER, David (org.) O Novo Autoritarismo na América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
por: Luiz Fernando Figueiredo Ramos*
O livro organizado por David Collier, lançado no Brasil em 1982, num contexto de começo da transição para a democracia em vários países do Cone Sul, procura contribuir para o debate acadêmico em torno das ditaduras militares que subjugaram o subcontinente latino-americano nas últimas décadas do seculo XX, também chamadas por Fernando Henrique Cardoso e Guilhermo O´Donnell de “autoritarismo burocrático”, traz uma contribuição interdisciplinar, reunindo sociólogos, cientistas políticos e economistas, além do próprio organizador, Fernando Henrique Cardoso, Albert Hirschman, José Serra, Robert Kaufman, Julio Cotler, Guilherme O´Donnell e James Kurth. Procurando explicar o surgimento destes regimes, controlados pelos militares como instituição, num contexto de mudança política nestas sociedades, que oscilaram em surtos relativos de industrialização-modernização e mobilização política dos setores populares.
Independentemente da ironia empregada no título do artigo, de um modo simplificado a simbologia da sapatada representa obviamente o protesto, do lado agressor significa a revolta e do lado atingido o insulto. De acordo com Pugliesi (2006, p.10) “Ninguém deseja ser um perdedor [...].”