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 Olá Amigos !!! Notadamente, o cinema é uma das mais vitoriosas e belas construções da modernidade. Algumas vezes, diria na maioria delas, consegue sagrar mais "histórias" que os próprios historiadores. Desse modo, como uma forma de mediação, despretensiosa, porém, ao mesmo tempo acadêmica, resolvemos criar esse novo espaço para um diálogo, já antigo, entre História e Cinema. Ricardo P. dos Santos, conhecido como Ricardo Bull, carioca de nascimento e de coração, é um historiador apaixonado por cinema. Com mestrado em História Comparada , pela UFRJ, escreve com regularidade sobre o tema. contato:
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Em 01 Fevereiro de 2010
Olá amigos,
Esta semana resolvi antecipar o debate. O filme escolhido, Invictus, nos oferece uma boa oportunidade para conhecermos um mais sobre política, esporte e, fundamentalmente, estratégia.
Filme: Invictus – Drama - Tempo de Duração: 134 minutos (EUA - 2009) Direção: Clint Eastwood
Assim como Lula, O Filho do Brasil (dirigido Fabio Barreto, 2009), Invictus é um filme sobre um grande personagem da política mundial (guardada suas proporções e tempo histórico). Esta, porém, não é a única coincidência das películas. O time do filme também é determinante e muito significativo para a compreensão das obras cinematográficas. Em ambos os casos as estréias foram feitas em momentos cruciais para as nações (eleição para presidente e copa do mundo) e, em particular, para as estruturas (Estado Nação) que servem como pano de fundo aos filmes. Ou seja, a confirmação/consolidação da imagem, construída ao longo da história deveria, agora, receber a chancela do cinema. Ainda que no filme de Fabio Barreto o caráter “propagandístico” não tenha sido declarado, é evidente nos nossos dias a importância (real ou imaginária) que um bom filme pode assumir dentro de uma inteligente estrutura de marketing. No caso de Invictus, não somente, a propaganda é evidente como também há uma espécie de necessidade do fazer (ainda que trate especificamente de Nelson Mandela, o filme vem num momento em que o país tem a responsabilidade de ser anfitrião de uma copa do mundo de futebol – O filme acaba funcionando como uma prévia do que acontecerá em poucos meses. Já fizemos uma vez, faremos novamente. Preservada as suas proporções, é claro...) Neste sentido, não fica difícil entender o porquê dos filmes terem apostados em estruturas de fácil compreensão, uma boa carga dramática e, fundamentalmente, em atores com prestígio para as interpretações principais (Morgan Freeman e Glória Pires). No caso do ator que interpretaria Mandela, vale ressaltar que Morgan Freeman foi o responsável por apresentar o roteiro a Eastwood, disse Mandela, não poderia ser outra pessoa senão ele. Chega de comparações, vamos ao filme. Especificamente sobre Invictus temos alguns pontos interessantes. O primeiro deles é a leitura sobre a importância de um esporte para a Nação. Tanto para segregar, quanto para unir, o potencial simbólico e real de uma prática esportiva pode, em larga escala, gerar mudanças sociais significativas. Facilmente este debate pode ser estendido a outros esportes. Outro destaque fica por conta da história do personagem principal, Nelson Mandela. Sem dar muita complexidade ao homem, a história de Madiba (como Mandela era chamado pelos seus seguidores) é representada de forma muito linear e com pouca expressividade. Algumas vezes parece haver um empenho em reforçar a boa e ilibada imagem do presidente, (como a cena de quando recebe seu pagamento e, imediatamente, abre mão de 1/3 do seu direito por achar que recebia muito). Um esforço desnecessário, haja vista a já consolidada imagem de Mandela. Clint Eastwood é um daqueles diretores que dificilmente erra em suas produções. Com poucas inovações (poucas mesmo, rs) e marcado por um estilo tradicional (o que não é um defeito a priori) suas obras sempre alcançam um bom resultado. A carga de sentimentos é sempre bem explorada nos filmes de Eastwood, neste filme, uma vez mais, explorou este aspecto. Quanto às atuações de Morgan Freeman e Matt Damon (um coadjuvante de extremo luxo), podemos dizer que continuam invictus (sic...rs). Neste caso, vale apenas uma ressalva. No livro Conquistando o inimigo (fonte inspiradora para o filme), de Jonh Carlin, um dos personagens principais da história é o ex-capitão do time e dirigente Morné du Plessis. No filme, este sequer é citado e o personagem de Matt Damon (François Pienaar – capitão do time) assume todas as glórias pelas ações. Uma injustiça que pode ficar para a história. Enfim, apesar de alguns equívocos o filme deve cumprir o seu papel. Ou seja, “vender” uma boa imagem do país sede da Copa para o cenário internacional (afinal, o fantasma do último atentado em angola, contra seleção de Togo, ainda paira sobre a África do Sul). O problema, neste sentido, é que a realidade fica bem longe da ficção e não sabemos, nem temos controle, como no filme, sobre como será a história da copa africana. Sobre isto, somente poderemos tratar, doravante, ao final do espetáculo. (Que venha a Copa do Mundo de 2010). Ps.: Invictus é um belo poema escrito por Willian E. Henley, em 1875, que serviu como fonte de sobriedade, equilíbrio e força para Nelson Mandela durante o seu período preso (27 anos). Marcado no filme pelos trechos: “Eu sou dono e senhor do meu destino” e “Eu sou o comandante da minha alma” o texto completo é de uma grande profundidade. Vale a pena conferir. Lá vai: Poema Invictus Do fundo desta noite que persiste A me envolver em breu - eterno e espesso, A qualquer deus - se algum acaso existe, Por mi’alma insubjugável agradeço. Nas garras do destino e seus estragos, Sob os golpes que o acaso atira e acerta, Nunca me lamentei - e ainda trago Minha cabeça - embora em sangue - ereta. Além deste oceano de lamúria, Somente o Horror das trevas se divisa; Porém o tempo, a consumir-se em fúria, Não me amedronta, nem me martiriza. Por ser estreita a senda - eu não declino, Nem por pesada a mão que o mundo espalma; Eu sou dono e senhor de meu destino; Eu sou o comandante de minha alma. É isso aí, encontro vocês na próxima sessão. Grande Abraço, Ricardo Bull
Em 25 Janeiro de 2010
Filme: Amor sem Escalas (Up in the Air) – Comédia Dramática - Tempo de Duração: 109 minutos (EUA - 2009) Direção: Jason Reitman  Um retrato dos nossos dias. Jason Reitman, o mesmo diretor de Juno(2007) e Obrigado por Fumar (2005), conseguiu manter a qualidade mesmo fazendo uma comédia para o grande público. Diferentemente dos dois filmes anteriores, que obtiveram bilheterias não expressivas para o cinema americano, o diretor parece ter conseguido achar o ponto médio na sua produção. Fazer um filme que levantasse boas questões e, do mesmo modo, agradar o grande público e, consequentemente, fazer bilheteria. O primeiro grande passo foi ter acertado na escolha de George Clooney (Ryan Bingham) para o papel principal. O galã americano, ainda em alta, com uma boa atuação consegue dar o tom certo para o personagem central da história. Além, é claro, de fazer vender melhor o filme. Além dele, a bela Vera Famiga (Alex Goran) e novata Anna Kendrick (Natalie Keener) mantém o circuito em boa sintonia e qualidade. O casal Clonney e Famiga obteve uma química muito boa e, da mesma forma, Anna Kendrick participa de tudo a altura. Enfim, um filme pra dar certo. Apesar de parecer somente uma comédia romântica e ter sido baseado numa obra de 2001 (o roteiro começou a ser escrito logo em seguida, em 2002) o filme é “surpreendentemente” atual. Tudo parece ter convergido para o filme ter a sua estréia neste momento. A crise econômica de 2009 (o desemprego em massa causado por ela) e os sucessivos esforços (nem sei mais se é tão esforço assim) para tornar nossas vidas cada vez mais vazias (ou diria hi-tech) tornam o filme uma experiência atual e promovem uma reflexão necessária. A história contada é a de Ryan Bingham. Um consultor responsável por demitir pessoas para as empresas e que prega em suas palestras, utilizando a metáfora da mochila vazia, que viver sem criar laços (sejam eles quais forem) é o melhor investimento. Fruto dos nossos tempos, repleto da efemeridade e da impessoalidade que vivemos no hodierno, a vida de Ryan parece estar caminhando para a sua plena “felicidade”. Alcançar os 10 milhões de milhas e se tornar um ultra vip da companhia área. O problema é que aparece na sua vida duas mulheres, Alex e Natalie, que mudam completamente o seu destino. Uma espécie de redenção para aquele que pregava o desapego humano e que, mesmo na família, parecia um estranho. Nenhum lugar é mais significativo do que o aeroporto para tratar do tema. A impessoalidade dos aeroportos e a dificuldade de estabelecer/firmar laços humanos numa ponte área são emblemáticos, neste sentido. Um paradoxo chama a atenção no filme. Natalie propõe a empresa de Ryan um sistema de vídeo conferência que tornaria o custo da empresa menor e, sobretudo, mais impessoal. Ou seja, a exacerbação da impessoalidade. Quem sabe chegará o dia em que seremos demitidos pelo msn ou pelo orkut. Ryan (o impessoal) questiona o serviço e diz que e necessária à presença em momentos como esse. Por fim, o filme é engraçado na medida certa, romântico, de forma inteligente, e dramático nas suas entrelinhas. Vale a pena conferir um filme atual, leve, mas que não deixa de apontar para dramas profundos das nossas vidas.
É isso aí, encontro vocês na próxima sessão. New York é logo ali...saudades... Grande Abraço, Ricardo Bull
Em 10 Janeiro de 2010
Amigos, Feliz Ano Novo para todos... Um ano repleto de bons filmes, bons sonhos e ótimas realizações...
Filme: Hanami – Cerejeiras em Flor (Kirschblüten - Hanami) – Drama - Tempo de Duração: 127 minutos (Alemanha – França - 2008) Direção: Doris Dörrie
Para refletir... Hanami - Cerejeiras em flor é um filme surpreendente. Sem pieguice e, sobretudo, com um roteiro bem desenvolvido o filme, que trata de temas já bem conhecidos do cinema, comove, surpreende e, fatalmente, faz pensar. É sempre bom assistir a filmes que nos faça pensar, principalmente quando somos massacrados por uma dúzia de filmes óbvios e com pouca sensibilidade. A responsável pelo belo filme é Doris Dörrie, desconhecida pelo grande público brasileiro, nascida em Hannover em 1955, é uma famosa diretora de cinema alemã. Formada pela escola superior de cinema de Munique, ela se tornou conhecida mundialmente com o filme Homens, de 1985. Doris também é autora do livro O Vestido Azul, pela editora Globo. (vale a pena experimentar a sua veia literária) Felicidade, Amor, dor, velhice, abandono e cumplicidade são alguns dos temas apanhados no filme. A película conta a história de um casal, Rudi Angermeier (Elmar Wepper) e Trudi Angermeier (Hanellore Elsner), que vive uma rotina bem definida pelo moldes de uma cidadezinha do interior. Moradores de um vilarejo no interior da Alemanha, com poucos amigos (talvez nenhum), o casal repete todos os dias o mesmo ritual. Ambos estão “mecanicamente adestrados” (a cena de Rudi retornando do trabalho e entrando em casa é emblemática neste sentido). Assim sendo, parece que nada pode abalar a felicidade (se assim definirmos) do casal. Entretanto, uma noticia abala a rotina do casal. Trudi recebe a noticia que seu marido tem uma doença muito grave e, decidida a não contar a verdade, resolve rever os filhos e promover ao marido um “bom” final de vida. Uma espécie de busca tardia pela felicidade de Rudi, que ao longo da vida teve alguns sonhos paralisados pelo jeitão meio abatido do marido. De qualquer forma eles partem para a viagem. Nesse momento o filme tem o seu primeiro grande movimento. Na verdade, a partir deste ponto o filme passa por várias mudanças que surpreendem e, principalmente, fazem pensar. Talvez uma ou outra cena fique fora do contexto. Mas, no conjunto, o filme consegue dar conta do recado. Doris Dörrie consegue como resultado final um filme de ótima qualidade. Reflexivo, sem obviedades e com temas muito significativos. Merece destaque a atualidade das tramas familiares que são desenvolvidas no interior da família Angermeier, da mesma forma que o amor incondicional e atemporal do casal Trudi e Rudi, Enfim, uma linda história de Amor.
É isso aí, encontro vocês na próxima sessão. Grande Abraço, Ricardo Bull
Em 16 de Dezembro de 2009
Filme: Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos) – Drama - Tempo de Duração: 128 minutos (Espanha - 2009) Direção: Pedro Almodóvar Almodóvar, sempre Almodóvar É sempre muito difícil escrever sobre filmes dirigidos por grandes diretores. Almodóvar, sem dúvida, está neste grupo seleto dos grandes gênios do cinema. Desse modo, talvez possa vir a cometer alguma injustiça descabida, ou ousada demais, para um jovem critico/admirador da sétima arte. Um filme sobre o cinema. Assim definiria abraços partidos. As referências são inúmeras. Audrey Hepburn, atriz de grande sucesso na década de 50, referências ao seu próprio quartel de filmes, como a alusão a Mulheres à beira de ataque de nervos (1988) e a referência a Marilyn Monroe. Enfim, são várias as cenas em que as referências cinematográficas são os grandes destaques. Tudo isso com muita delicadeza e perfeição. O roteiro não se perde. Apesar de trabalhar com dois recortes de tempo (passado e presente num mesmo plano) a dinâmica e a inteligibilidade do filme não fica comprometida e o resultado, como já esperado, é um filme que prende a atenção. Do começo ao fim Almodóvar consegue contar uma história coerente e bem definida. O filme tem algumas marcas emblemáticas da filmografia do diretor. As cores vivas, notadamente o vermelho, e as tomadas bem próximas são chamam a atenção durante o filme. Um bom exemplo é a cena de uma lágrima caindo sobre um tomate e o acompanhar dos passos da atriz principal. A história contada é a de um diretor cinema, Mateo Blanco (Lluis Homar), cego há quatorze anos, que conta a sua história para um jovem, filho de sua assistente, depois de um acidente com drogas. Durante a sua recuperação o Jovem indaga sobre o passado de Harry Caine (pseudônimo de Mateo Blanco). Mateo, naquele momento respondendo apenas por Harry conta a história de sua grande paixão, Lena (Penélope Cruz), de como ficou cego e, fundamentalmente, de como apagou da sua vida o seu verdadeiro nome. Cheio de nuances psicológicas o filme tem uma boa carga reflexiva sobre as relações humanas. Enfim, Almodóvar está de volta com a sua atriz queridinha. Penélope Cruz atuou em outros bons filmes do diretor, foram eles: Carne Trêmula (1997), Tudo Sobre Minha Mãe (1999) e Volver (2006). Neste, Penélope está estonteante, madura e, sobretudo, atuando de forma magnífica. Almodóvar, como sempre Almodóvar. No mínimo, muito bom. É isso aí, encontro vocês na próxima sessão. Grande Abraço, Ricardo Bull Em 23 de Novembro de 2009
Filme: Terra Sonâmbula – Drama - Tempo de Duração: 98 minutos (Portugal/Moçambique– 2007) Direção: Teresa Prata O continente africano é, ainda hoje, um lugar a ser descoberto. Marcado pelas guerras, pela miséria e por inúmeras outras mazelas, a África precisa de um pouco mais de atenção. Esse é o cenário que, em larga escala, conhecemos deste continente. Foi partindo deste ostracismo sombrio que fiz a minha escolha desta semana. Necessária, a meu ver, para conhecermos obras que nos brinde com uma beleza, em muito, desconhecida. Terra Sonâmbula é um filme, baseado na obra homônima do moçambicano Mia Couto (1ª edição de 1992), que tem como grande painel a Guerra Civil Moçambicana. Apesar de tratar do ambiente nefasto da guerra, o filme tem um ótimo desdobramento e uma beleza estética bem interessante. Com diálogos bem elaborados, com atuações bem adequadas e com uma bela fotografia, a portuguesa Teresa Prata consegue produzir um filme leve, sensível e muito bonito. O filme não chega a chocar, tampouco emocionar, mas o conjunto da obra é harmônico e, ao final do filme, promove a sensação de querer conhecer mais sobre o cinema e a literatura africanos. Vale destacar, neste sentido, que algumas falas tocam em questões duras e apropriadas aos nossos dias e as nossas experiências cotidianas. “Não agüento mais viver entre mortos” e “se não fosse à leitura estaríamos condenado à escuridão” são apenas duas das inúmeras frases que nos faz pensar sobre nossas vidas. A nossa cidade “maravilhosa” que vive repleta de balas perdidas e corpos por todos os cantos, inclusive em carrinhos de supermercado, bem como a obscuridade literária da nossa juventude, tornam as questões de Moçambique fáceis de serem compreendidas. Na estrada de terra de uma Moçambique em guerra, Muidinda (Nick Lauro Teresa) e Tuahir (Aladino Jasse) perambulam atrás de um pouco de paz. O cenário é devastador. A guerra que separou Muidinga de seus pais, foi a mesma que o uniu ao velho “rabugento”. Os diálogos entre os dois protagonistas e, sobretudo a sintonia entre eles fazem o filme assumir um caráter duro, porém, ao mesmo tempo poético. Apesar de não serem atores profissionais, as atuações são muito boas. O aparecimento de um diário e a sua leitura, feita pelo jovem menino, nos remete as infinitas possibilidades que conseguimos alcançar com um livro, mesmo no caso de um diário. O caminho de ambos acaba sendo traçado através desta leitura. O Trajeto percorrido por Muidinga e Tuahir, movido pelo sonho de achar a família e a paz, promovem ao filme, cercado pela guerra, momentos de grande ternura e sensibilidade. Uma magia contagiante ressaltada com a atuação Nick L.Teresa. Enfim, Terra Sonâmbula é um filme que merece destaque. Sua sensibilidade e magia têm o tom certo para não torna-lo cansativo e cheio de mesmices. O único pesar é o número exíguo de películas do cinema africano. Ao fim e ao cabo, uma boa experiência. Obrigado pelos contatos, (
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) Continuem enviando mails com sugestões e críticas. Grande Abraço, Ricardo Bull Em 13 de Novembro de 2009
Filme: Besouro – Ação - Tempo de Duração: 95 minutos (Brasil– 2009) Direção: João Daniel Tikhomiroff Quando assisti ao Trailer não tive dúvidas, Besouro estaria na relação dos filmes que iria assistir. Fui bem-disposto ao cinema assistir ao filme e acabei tendo uma grande decepção. Minha conclusão é simples, o trailer é muito melhor que o filme. Dinâmico, com pontos bem apresentados e com uma velocidade bem adequada ao cinema americano (não que este seja o melhor, longe disso. Mas, tem um ritmo fácil de ser visto), o material de divulgação do filme convence antes mesmo de chegar ao final (pouco mais de 2 minutos). Afinal, qual foi o problema de besouro? Um filme de capoeira, arte onde o jogo, a dança e a luta se misturam numa sincronia perfeita, tinha tudo para emplacar uma grande produção. Com a sua plasticidade corporal impar, que empolga de imediato, um filme de capoeira fugiria da onda de filmes sobre violência urbana e comédia que estamos repetidamente assistindo na grande tela. Com isso, teria tudo para inovar e, fundamentalmente, para construir uma boa e nova narrativa. Vejamos, então, alguns pontos relevantes:
Pouco conhecido fora das rodas de capoeira, a história de besouro merecia um detalhamento maior ou, noutro sentido, deveria se investir mais na capoeira. Na verdade, o que aconteceu foi que nem a história do protagonista empolgou, nem a capoeira teve a chance de mostrar seu potencial estético numa seqüência mais elaborada/demorada do jogo. Ambos os equívocos tornam o filme monótono. Para um filme de capoeira, tal fato é imperdoável.
O momento histórico tratado no filme, década de 20 do inicio do século passado, uma grande turbulência agitava o Brasil. Os primeiro anos da nossa República são decisivos para a reconstrução da condição negra no País. Nesse sentido, parece muito linear a condição exposta no filme. Parece que a resistência ainda era pífia. Talvez no interior do recôncavo baiano. Mas, ainda sim merecia uma investigação histórica mais apurada.
A trilha sonora decepciona. Para quem espera uma trilha marcada pelos belos cânticos das rodas de capoeira, por diversas vezes se pega ouvindo uma espécie de trance de capoeira, confuso diante das imagens que estavam sendo exibidas. Outra confusão gira em torno das entidades religiosas exploradas no filme. Somos tantas, que as confusões são inevitáveis.
O filme também levanta pontos positivos. Tratar da escravidão na pós-abolição é uma temática muito interessante, expõem de forma conveniente às mazelas de uma população que, até nossos dias, sofre com o trabalho escravo e a exploração.
Enfim, tomei um “rabo de arraia” (uma rasteira para os não capoeiristas) do filme. Com atuações fracas e um roteiro que fica na promessa, o filme deixou a desejar os ávidos por ação no cinema contemporâneo brasileiro. Mas, continua fazendo grande bilheteria. Ao fim e ao cabo, o cinema brasileiro continua na sua corrida pelas grandes bilheterias. Beijo no coração de todos. Ricardo Bull
Em 30 de Outubro de 2009
Filme: Michael Jackson´s This is it – Documentário - Tempo de Duração: 102 minutos (EUA– 2009) Direção: Kenny Ortega Para quem acompanhou, assim como eu, a trajetória do maior ídolo do pop mundial, o documentário de Kenny Ortega nos serve para confirmarmos a grandeza de um profissional completo e apaixonado pelo seu público. This is It é uma verdadeira aula de como se faz um grande espetáculo. Melhor dizendo, o maior de todos os espetáculos. Fica claro logo de inicio que o documentário não é sobre a vida de Michael, mas sim dos bastidores da turnê que o cantor faria em Londres, em julho deste ano (isso ainda passava na cabeça de algumas pessoas). Com a tela escura e com um texto digno de uma epopéia a película é apresentada com um tom saudoso. Antecedida por alguns emocionados e emocionantes depoimentos, estratégicos, pois causa ainda mais suspense para a aparição do ídolo, eis que surge Michael Jackson, dançando brilhantemente. Feliz, com muito vigor, carinhoso e, acima de tudo, senhor de todo o espetáculo, Michael mostra o quanto queria fazer aquilo e o quanto ele era grandioso. Resultado de ensaios, as filmagens deixam isso claro. Mostram as interferências, as repetições, os erros e, principalmente, a obsessão pela perfeição. Uma mixagem de várias câmeras, algumas com qualidade bem inferior, mostram o quanto foi desgastante a preparação para o show. A dedicação do astro principal ditava o tom dos ensaios. O filme apresenta o que seria, ou se pretendia, o maior espetáculo de todos os tempos (não duvido que realmente fosse). Alguns aspectos surpreendem no filme, talvez resultados de uma boa edição, mas, são reveladores do perfil e do que os milhões de fãs poderiam esperar do astro. O mais surpreendente é, sem dúvida, o vigor e a capacidade de dançar, e hipnotizar, de um homem de 50 anos de idade, acompanhando jovens dançarinos, escolhidos com a participação do próprio cantor. Em nenhum momento é visível o cansaço ou mesmo é percebida a doença pela qual passava Michael. Como disse talvez fruto de uma boa edição. Fot the fans, faz parte do texto inicial do documentário. A frase é significativa e emblemática, pois durante os ensaios isso era reforçado a todo instante pelo astro. Interessante, neste sentido, é descobrir em todos que participavam da produção do espetáculo um fã de Michael Jackson. Enquanto ele dançava e cantava durante os ensaios, aqueles que não estavam envolvidos com o set aplaudiam e curtiam o show particular. Privilégio de poucos. Sobre o repertório podemos destacar alguns pontos. Em Human Nature Michael faz um apelo para cuidarmos melhor do meio ambiente. Nada mais adequado aos nossos dias. Em Smooth Criminal o show trás o filme Gilda, clássico de 1946 dirigido por Charles Vidor, para o palco. Nele, o cantor participa do filme e interage com os personagens, numa perseguição digna dos gangsters dos anos 40. A versão nova de Thriller ganha uma aranha gigante e alguns outros apetrechos, mas, nada que fosse mais importante que a coreografia original dançada no final da música. E por fim, em Billie Jean, o cantor parece não usar muito os movimentos de pernas, constante na coreografia original. De qualquer forma, nada disso consegue ofuscar o brilho de Michael Jackson. Kenny Ortega, que também foi diretor dos musicais High School Musical 1, 2 e 3, sucesso de bilheteria, é, algumas vezes, coadjuvante no espetáculo do mais famoso da família Jackson. A seriedade e competência como Michael participa do espetáculo fazem dele o grande eixo da produção. Enfim, apaixonados pela década de 80, pela dança e, sobretudo, por produções que vislumbre inovações e contem uma bela história, assistam à última exibição do maior astro de todos os tempos. Para aqueles que ainda procuram reforçar a trajetória polêmica do astro, também assistam, pois acredito que já nos primeiros passos estas questões serão menores diante do fascínio que o dançarino provoca. Como não poderia perder o momento. This is it, rs Beijo no coração de todos.
Em 08 de Outubro de 2009
Olá amigos,
Filme: Salve Geral – Drama - Tempo de Duração: 120 minutos (Brasil– 2009) Direção: Sérgio Resende
Amigos, estamos de volta com um filme nacional. Agora com um possível concorrente ao Oscar 2010 na categoria de melhor filme estrangeiro. Sérgio Resende está ficando veterano nisso. Concorreu com dois outros filmes ao mesmo prêmio em 2002 (Carandiru) e 2007 (Próxima parada 174). Em comum, filmes que tratam de acontecimentos reais e que, acima de tudo, colocam problemas graves do país na grande telona. Como já dito em outras ocasiões, temos mais uma obra que espetaculariza as mazelas do Brasil, sem dar grandes passos dentro do cinema. Enfim, vamos ao filme. A película trata dos ataques orquestrados por uma facção criminosa, Primeiro Comando da Capital (PCC), à cidade de São Paulo. Esse é o mote central do filme. Entretanto, histórias paralelas acabam emergindo e às vezes confundindo esse trabalho. Ou seja, os ataques dos criminosos em alguns momentos deixam de ser o centro e passam a ser coadjuvante entre duas histórias de amor (mãe e filho/ mocinha e bandido) e a polêmica, não menos verdadeira, falência e fragilidade do Estado.  O filme começa com uma família de classe média se desestruturando financeiramente e com um “jovem” imaturo causando uma tragédia e sendo preso pelo seu crime. Com a prisão de Rafael (Lee Taylor), por ter matado a tiros uma jovem, sem intenção, durante uma briga, Lúcia (Andréia Beltrão) começa sua saga para libertar seu único filho. Também muito desestruturada e com uma ingenuidade inicial pouco convincente, Lúcia tem o seu caminho atravessado por Ruiva (Denise Weinberg) e pelo professor (Bruno Perillo), lideranças da organização criminosa. Dois fatos chamam atenção nestas relações. Primeiro é a forma como a ruiva domina completamente as ações de Lúcia. Segundo, a maneira como Lúcia se envolve com o professor. Tudo bem que naquele momento a mãe de Rafael estivesse fragilizada e muito atordoada com tudo que estava acontecendo. Mas, daí transar dentro do presídio como aconteceu e deixar se manipular por uma desconhecida daquela forma, parece muito forçado. Outro dado importante foi à forma como o Estado de São Paulo foi apresentado. Fundamentalmente, a Secretaria de Segurança Pública e seus agentes. Neste caso, talvez o fato que mais aproxime o filme da realidade. As veias abertas da segurança do Estado diagnosticam uma morte eminente. O filme é muito interessante neste aspecto. Pelo menos por ter dilacerado uma estrutura já bem conhecida da nossa sociedade. Um poder “paralelo” que se encontra mais do que pensamos. No mesmo filme, como disse foram muitas informações, temos o PCC “tomando conta” do Estado. Fazendo e desfazendo, ao seu bel prazer, as ações que queriam. Ainda que em algumas circunstâncias as lideranças da organização criminosa ficassem pouco convincentes, a forma como se relacionavam com o Estado foi bem retratada. Destacaria no filme as ótimas atuações de Andréia Beltrão, Denise Weinberg e do jovem Lee Taylor. Apesar dos pequenos problemas de roteiro, elas merecem aplausos. Sobre a história, chamado pelo diretor como o 11 de setembro de São Paulo, sentimos falta da exposição real da resposta da polícia ao evento. No filme, mostrado com apenas duas cenas rápidas de mortes gratuitas. Devemos lembrar que foram mais de 500 mortes nesta ocasião. Enfim, o filme que pode disputar a estatueta em 2010 leva para as telonas problemas estruturais sérios do nosso país. Torna-los ainda mais visíveis pode ser considerado um mérito. Entretanto, compreendo que como produção cinematográfica peca em alguns aspectos.
Vejo vocês no cinema. Beijo no coração de todos. Em 21 de Setembro de 2009Olá amigos, Filme: A Partida (Okuribito) – Drama - Tempo de Duração: 130 minutos (Japão– 2008) Direção: Yojiro Takita Sabemos pouco sobre os hábitos dos países orientais. O Japão entra na lista destes países dos que conhecemos apenas aquilo que nos chega, fundamentalmente, através da televisão. Sabemos de forma muita superficial, que são repletos de rituais e práticas culturais que, em larga escala, contribuem para a construção do imaginário daqueles países. O belíssimo filme do diretor Yojiro Takita nos ajuda há compreender um pouco mais sobre a cultura deste país “desconhecido”. Ganhador do Oscar 2009 de melhor filme estrangeiro a obra consegue emocionar e debater questões muito interessantes. Entretanto, apesar da eloqüência, a película não trás nada de novo na sua estrutura, tampouco no seu roteiro. Outros filmes como Valsa com Bashir (Israel/Alemanha/França/EUA, 2008) e Entre Les Murs (França, 2008), que concorreram ao mesmo Oscar de 2009, são muito mais originais e com debates mais interessantes e intensos. O filme conta a história de Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki). Um violoncelista que retorna a sua cidade natal depois que a orquestra onde tocava é dissolvida. Acompanhado pela sua mulher Mika Kobayashi (Ryoko Hirosue) e reconhecendo o limite do seu talento, Daigo tem que buscar um novo emprego para o sustento da família. Diante das circunstâncias, ele acaba aceitando o emprego de “preparador de corpos” numa funerária. A profissão conseguida por Daigo traz a tona no filme o principal eixo reflexivo. Notamos que dependo do lugar que se ocupa e da relação e envolvimentos que o individuo têm com o ritual, neste caso estabelecido entre a figura do “preparador de corpos” e a família do falecido, os agentes envolvidos assumem papeis diferente diante de preconceitos tão comuns da sociedade. A morte e, consequentemente, o ritual de preparação da senhora proprietária da casa banho é emblemática para a compreensão dos reposicionamentos dos valores simbólicos e reais da profissão de Daigo. Preconceitos e valores são debatidos com frescor no filme. Por se tratar de um povo que conhecemos pouco e, sobretudo, pelo encantamento visual e sonoro da obra, o filme causa de imediato uma emoção muito grande. No entanto, se deslocarmos a emoção e investirmos num debate mais profundo o filme fica no meio do caminho. O grande destaque da fotografia (Takeshi Hamada), de certa forma comum aos filmes orientais, e da música (Joe Hisaishi) suave e profunda que permeia toda a obra, contribuem para a construção de um filme premiado com o Oscar. Diria que, como conclusão, A Partida é um ótimo lazer para o grande público. Vale ressaltar que o ganhador do Oscar de Melhor filme em 2009 foi Quem quer ser um milionário (EUA-ING- 2009), uma produção com o perfil bem próximo deste que debatemos. Tal fato parece marcar o que academia estava disposta a fazer com os prêmios. Vejo vocês no cinema. Beijo no coração de todos. Em 11 de Setembro de 2009 Olá amigos, Fiquei fora durante este mês preparando um capítulo de livro, onde escrevo sobre cinema, e fazendo alguns outros trabalhos que me consumiram muito tempo. Desse modo, apesar de todo esse trabalho, peço desculpas pela ausência.
Obrigado pelas mensagens e aguardo mais contatos de todos.
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Vamos ao filme da semana
Filme: O Sequestro do metrô 123 (The Taking of Penham 1 2 3) – Ação - Tempo de Duração: 121 minutos (EUA - INGlATERRA– 2009) Direção: Tony Scott Tony Scott, irmão mais novo de Rildley Scott, retorna a grande tela com um filme sem grandes atrações e inovações. Salvo o visual agressivo de John Travolta (Ryder), bem diferente do Tony Manero da década de 80, o filme se desenvolve em torno de um roteiro bem conhecido dos filmes de ação. O diretor de Déjà Vu (EUA -2006), diga de passagem bem mais interessante, peca pelos excessos no seu novo trabalho. O livro de John Godey, utilizado para o roteiro do filme, já gerou duas outras películas. O Sequestro do Metrô (1974) e, anteriormente, Inferno Subterrâneo (1998). Apressadamente, esse não é um dado relevante que comprometa a análise do filme. No entanto, alguns pontos tratados no filme, como terrorismo, ou pelo menos a leitura apressada de que tudo é terrorismo, passaram a ser demasiadamente explorados após o pós 11 de setembro de 2001. Neste sentido, a temática acaba proporcionando um novo debate. O seqüestro do metro 123 é um filme em que um homem comum salva o dia em Nova York. Como disse uma proposta bem conhecida. Outro ponto que parece um lugar comum é Denzel Washington (Walter Gerber) nesses papéis do grande salvador. Ele, que não perde a cara de filme de ação/policial, assume o papel de controlador de tráfego de metrô e acaba como um verdadeiro policial como arma em punho. Vale lembrar que o ator parece ser um queridinho de Scott. Neste lançamento completam quatro filmes em que o ator assume o papel principal (Maré Vermelha (1995), Chamas da Vingança (2004) e Déjà Vu (2006)). Apesar de todos estes detalhes, mais uma vez o ator tem uma boa atuação. O filme por diversas vezes fica inverossímil nas suas tomadas. A principal delas ocorre quando a policia do Estado leva o dinheiro para a Gerber entregar a Ryder. Uma seqüência de inúmeros acidentes que, para um escolta de batedores, devemos ao menos ponderar. Nesse caso, a Lei de Murphy é utilizada em demasia. Um destaque maravilhoso, garantidor de uma boa risada, fica por conta da jovem namorada que cobra do seu namorado uma resposta quanto ao seu amor por ela. Mesmo sabendo que o vagão esta com possíveis “terroristas” ela diz que ele poderia apenas emitir um som qualquer, para que ela não ficasse sem resposta. Enfim, um filme regular com caras conhecidas, com um enredo fácil e, fundamentalmente, previsível. Vejo vocês no cinema. Beijo no coração de todos.
Em 10 de Agosto de 2009
Olá amigos, Antes de começar a falar sobre o filme desta semana, irei fazer algumas sugestões paralelas.
Casamento silencioso- Drama – Romênia – 86 minutos – Um ótimo filme romeno que, além de uma estrutura diferenciada, apresenta uma ótima reflexão sobre a possibilidade de se estar aprisionado mesmo que aparentemente livre. O cinema Romeno é ótimo e reafirma isso no filme.
Caramelo (Sukkar Banat) – Comédia/Drama – França/Líbano - 95 minutos – Apesar de o universo feminino ser uma temática constante no cinema, a libanesa Nadinie Labaki, Diretora e atriz, consegue produzir um ótimo filme. Marcado pelo universo feminino, passado fundamentalmente dentro de um salão de beleza, os dramas vividos são retratados com ótimas atuações das não-atrizes convidadas para a película. Vale a pena conferir.
Obrigado pelo mensagens e aguardo mais contatos de todos.
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Vamos ao filme da semana
Filme: O Contador de Histórias – Drama - Tempo de Duração: 110 minutos (Brasil– 2009) Direção: Luiz Villaça
Era uma vez... Uma história imperdível.
Antes de começar a escrever propriamente a critica sobre o filme, devo confessar uma coisa. Quando fui ao cinema assistir a este filme já esperava um bom trabalho, sobretudo por antecipadamente conhecer a história do personagem principal. A vida de Roberto Carlos Ramos é simplesmente uma linda história de amor. Quer dizer, nem tão simples assim, como bem mostra o filme repleta de dores, preconceitos, violência e tudo mais que o país oferece as crianças abandonadas ao nosso redor. Roberto Carlos Ramos fez parte deste grande universo de crianças que, sem oportunidades, acabam virando estatísticas em folhetins policiais. Diferentemente do que se esperava e contrariando as pessimistas previsões, exceto de sua mãe que na sua ingenuidade e ignorância achava que a FEBEN iria lhe dar condições (casa, comida e escola) para “crescer na vida”, Roberto não virou estatística, virou pedagogo e está entre os maiores contadores de história do mundo. Filho mais novo de uma família grande e muito pobre, eram nove irmãos, Roberto acabou pagando por uma propaganda enganosa. Durante um comercial da FEBEM, vinculado durante o governo militar, sua mãe tomou a decisão de entregar o seu filho a Instituição que poderia, como afirmava o comercial, prover seu filho de boa alimentação e ensino de qualidade e, consequentemente, lhe possibilitaria um futuro melhor. Assim, Roberto C. Ramos chegou a FEBEM, aos 7 anos de idade. Depois de inúmeras escapadas o menino já era rotulado como irrecuperável. Nada diferente dos determinismos simplistas veiculados todos os dias no nosso país. No primeiro encontro com a pedagoga francesa Margherit (Maria de Medeiros, de Pulp Fiction) o rótulo já está fixado e as marcas do “bom” ensino e da “boa” alimentação já estão bem visíveis no jovem. Mas, o mais surpreendente é a história contada pela criança a pedagoga. Misturando uma grande dose de fantasia e humor, Roberto (Marcos Ribeiro – aos 7 anos) “descreve” a sua (deliciosa e fantasiosa) história sobre a sua chegada a FEBEM. Mais de 100 fugas, inúmeras brigas, um sem números de pequenos furtos, violência sexual e tendo como ídolo o “pior” bandido da área a história desse garoto tinha tudo pra dar errado. Mas deu certo. Disse no inicio deste texto que a história do protagonista era uma história de amor. Chegou à hora de explicar. Apesar de toda violência e de todas as dores vividas pelo jovem, foi o amor da pedagoga que salvou o Roberto Carlos. Um amor inexplicável, insensato, inesperado mas, sobretudo, salvador. Por isso uma história de amor. Marcos Ribeiro, Paulo Mendes e Cleiton Santos, interpretam Roberto Carlos aos 7, 13 e na fase adulta respectivamente, fazem um ótimo trabalho. Jú Colombo, no papel da mãe do menino, também é muito boa no seu desempenho. Trabalhar com afirmações já conhecidas e de certa forma já batidas no cinema é sempre um desafio e, neste sentido, podemos dizer que o resultado final é muito tocante. Enfim, entre as fantasias de um contador de histórias e a dura realidade da sua própria história, o filme que revela a vida de Roberto Carlos Ramos através de um emocionante e comovente filme nos leva a pensar sobre o que fazemos, falamos e, sobretudo, sentimos sobre nossas próprias histórias. Nos encontramos no cinema, Beijo no coração de todos.
Olá amigos, fiquei fora esta última semana, mas estou de volta e com boas novidades no cinema nacional. Em 03 de Agosto de 2009 Filme: À deriva – Drama - Tempo de Duração: 103 minutos (Brasil– 2009) Direção: Heitor Dhalia
O mesmo diretor de O cheiro do ralo (2006), Heitor Dhalia, retorna as grandes telas com um bom filme. Diria que À DERIVA, para quem acompanhou a produção do diretor, é um filme surpreendente em alguns aspectos. Notadamente, o que mais chama a atenção, é a estrutura do filme. Diferente das duas últimas produções (incluindo Nina - 2004), o filme investe numa ótima fotografia e num roteiro mais fácil para o grande público. O caráter mais denso das produções anteriores não se repete em À deriva. Entretanto, estas escolhas, não tornam o filme menos interessante. Talvez, esta diferença, promova ao filme um bom número de espectadores e, numa fase onde se comemora os grandes públicos do cinema nacional (Se eu fosse você 2, Mulher invisível e Divã) está talvez tenha sido uma boa estratégia.  Centrado fundamentalmente na vida de Filipa (Laura Neiva), 14 anos, o filme retrata as turbulências de uma adolescente conhecendo as dores e amores do mundo real. As fantasias de criança vão dando lugar à desordem da juventude. Vale ressaltar, neste sentido, que a jovem atriz é uma bela surpresa no filme. A sua ótima atuação promove ao filme um bom ritmo e equilíbrio. Filha de Matias (Vincent Cassel) e Clarice (Déborah Bloch), um casal que tenta recuperar o casamento nas férias em Búzios, Filipa descobre a traição do pai e começa a viver uma grande confusão de sentimentos. A decepção com a descoberta da amante do pai, Ângela (Camilla Belle), as confusões de uma jovem adolescente em plena transformação, acompanhadas de um amor que transcende a paternidade faz de Filipa um personagem complexo e muito interessante. O filme tem dois pontos que chamam a atenção. O primeiro se refere ao amor de Filipa por Matias. Uma relação que faz a jovem viver a dor e o amor muito além dos sentidos familiares. As vezes que Filipa assiste o pai transando com a amante, seguida da cena em que ela invade a casa da amante e se “fantasia” querendo “viver” ou “ser” Ângela são bons pontos análises. O outro ponto de destaque é a virada do filme na sua última parte. O roteiro todo o tempo apresenta uma linearidade entre a traição do pai e desestrutura da família. No entanto, a descoberta que a mãe é a personagem central do rompimento familiar promove a produção um ótimo desfecho. Enfim, uma mãe aprisionada numa vida que não mais deseja, um pai que trai e ao mesmo tenta salvar a família e uma jovem adolescente que descobre o mundo dos adultos de uma maneira bem realista formam uma boa tríade no novo filme de Heitor Dhalia. Um bom filme para o fim de semana. Vale a pena conferir.
Abraço para todos Nos encontramos por aí. Em 06 de julho de 2009
Filme: Tinha que Ser Você (Last Chance Harvey) – Romance - Tempo de Duração: 92 minutos (EUA / Inglaterra– 2009) Direção: Joel Hopkins
Leve e apaixonante. Tinha realmente que ser você
Esta semana o filme escolhido foi um romance bem leve. Um filme, ressaltariam os românticos de plantão, feito para os corações solitários (agora não mais solitário) que acreditam no amor e na felicidade. Mais ainda, um filme que alerta para os perigos que corremos quando estamos, ou ficamos, desatentos aos nossos corações, as pessoas que amamos e, em último grau, a própria vida.  Sempre haverá uma nova (quem sabe última) chance para ser feliz, basta você se permitir isso. Esse é o grande dilema da história contada, com muita simpatia, por Harvey Shine (Dustin Hoffman) e Kate Walker (Emma Thompson). Há pouco tempo descobri que essa é a mais pura verdade. Podemos ser felizes, Basta estarmos na mesma sintonia e acreditarmos ser possível. De um lado temos Harvey, um compositor de Jingles que vive solitário em Nova York repleto de problemas da contemporaneidade. Com o seu emprego em risco e se vendo “obrigado” a viajar para Londres para acompanhar o casamento da filha Susan (Liane Balaban), percebe que a distância entre eles, causada, sobretudo, pelas escolhas que fizera no passado, é tão grande que parece ser instransponível. Do outro lado vive Kate, funcionária do Departamento de Estatísticas Nacionais no aeroporto de Londres, solteirona e com uma mãe neurótica que vive angustiada com a solteirice da filha e preocupada com o vizinho (um “serial killer” em potencial - risos). Apesar do esforço das suas amigas de trabalho, a vida de Kate permanece a mesma. Uma chatice. Com as suas vidas aparentemente ajustadas, ou seria desajustadas, Kate e Harvey parecem não estar dispostos a correrem riscos. Em conseqüência acabam dizendo não para a vida. E vivendo a solidão dos nossos tempos. Uma solidão repleta de pessoas ao redor.
Como um bom romance, a casualidade ou o destino, diriam mais uma vez os românticos de plantão que foi o destino, os dois se encontram e acabam se aproximando e, diferentemente das outras experiências, se permitem sorrir para a vida e arriscar um pouco mais. Numa mesma sintonia os encontros e desencontros de Kate e Harvey promovem momentos emocionantes. O filme nos ensina que devemos permitir o amor, que devemos amar mais intensamente e nos esforçar para não perder as pessoas que amamos. Atravessar a cidade, ou o estado se necessário, para viver algo especial é apenas permitir que alguma coisa especial possa vir a acontecer. A reconquista da filha e a aproximação entre os personagens principais são marcadas pela verdade e pela coragem de arriscar. Dessa forma, a angústia e a solidão de Kate e Harvey são convertidas em momentos prazer e magia. Ou seja, o diretor e roteirista, Joel Hopkins, apostou num romance fácil e gostoso de assistir. Com um roteiro simples o filme fala da solidão contando uma boa história de amor. Sem muita complexidade e com boas atuações o filme dá um bom puxão de orelhas nos que vivem sem olhar ao seu redor. Devemos estar atentos às surpresas que a vida nos apresenta e, fundamentalmente, nos permitir a felicidade. Abraço para todos Nos encontramos por aí. Agora, Atravessando a cidade e permitindo a felicidade. Em 29 de junho de 2009
Filme: Jean Charles – Drama - Tempo de Duração: 90 minutos (Brasil / Inglaterra– 2009) Direção: Henrique Goldman
Alegria e medo É comum encontrarmos amigos que vivem, ou viveram, o sonho de ir para o exterior ganhar a vida. Entretanto, no afã de viver uma nova experiência, esquecemos que também são comuns as histórias da dura jornada que levam os emigrantes quando chegam a terras desconhecidas. A alegria da realização convive com o medo da deportação e da prisão. Assim é a história de Jean Charles de Menezes e de milhões de estrangeiro que ganham o mundo em busca de seus sonhos. O filme, a 1ª co-produção entre Brasil e Inglaterra, conta a vida do mineiro Jean Charles, assassinado na estação do metrô de Stockwell na capital inglesa, em 22 de julho de 2005. Nascido na pequena cidade de Gonzaga, Jean vivia em Londres como eletricista e, literalmente, se virava para melhorar sua vida e a de seus primos (Vivian, Alex e Patrícia) que viviam com ele.  Para além de contar um caso particular o filme retrata a dura experiência do estrangeiro. A dificuldade do idioma, o trabalho duro que têm que desempenhar, a espécie de “guetos” a que são limitados, sobretudo os ilegais, e a dificuldade de ter e fazer amigos locais. Estes são apenas alguns pontos mostrados no filme que transcendem a vida do Jovem mineiro. A solidão diante de tantas pessoas também é uma experiência desenvolvida no filme. O abandono dos familiares e amores, este último emblemático no personagem de Vivian (Vanessa Giacomo), parece, ao fim e ao cabo, pertencer a todos os estrangeiros. A parte dura de uma história que busca a felicidade. Selton Mello mais uma vez dá um show de interpretação. As alegrias, tristezas e angústias de Jean Charles são passadas com muita clareza e sensibilidade pelo ator. Da mesma forma, Vanessa Giácomo (Vivian), Luís Miranda (Alex) e Patrícia Armani (Patrícia – prima real de Jean Charles) dão conta do recado e contribuem de forma significativa para o bom trabalho. Morto com sete tiros na cabeça, Jean Charles foi acusado de fazer parte de um grupo terrorista. Notadamente, um erro da “melhor” policia do mundo custou não só a vida do jovem, mas também inverteu a história do “inocente até que se prove o contrário”. O filme mostra, utilizando trechos da época, as acusações contundentes que foram feitas antes mesmo de qualquer investigação. A condenação da vítima não se encerrou com a sua morte. Amigos e Familiares participaram do filme atuando como si próprios e contribuindo para a direção e roteiro com histórias da vida de Jean Charles. Enfim, um bom filme com momentos engraçados, mas que, acima de tudo, conta uma história que deve ser levada a sério.
Nos encontramos por aí....
Em 14 de junho de 2009
Filme: Os Falsários – Drama - Tempo de Duração: 98 minutos (Áustria e Alemanha – 2007) Direção: Stefan Ruzowitzky
Entre a dignidade e a morte
Mais uma vez a Segunda Guerra e o Holocausto são utilizados como fontes para a produção de filmes sobre as experiências dos judeus durante o período do conflito mundial. No entanto, apesar do grande número de produções já existentes, verificamos um “movimento” para conseguir, de temáticas e cenários bem conhecidos, trazer novos fatos e experiências para o cinema. Os Falsários e Um ato de Liberdade( este último já debatido em outra ocasião neste Blog) parecem fazer parte deste “movimento”. Baseados em livros que contam histórias de experiências pouco conhecidas os dois filmes nos proporcionam bons debates sobre o tema. Repleto de dilemas morais, o filme, com uma ótima atuação de Karl Markovics (Salomon "Sally" Sorowitsch) que consegue dar intensidade aos dilemas da trama, conta a história de um grupo de judeus que sobreviveram ao holocausto por possuírem habilidades técnicas que, naquele momento, eram necessárias para os desdobramentos dos planos Nazistas (Operação Bernhard). É diante deste cenário que as principais reflexões surgem. Será compreensível contribuir com os carrascos do seu povo para manter-se vivo? Até que ponto podemos nos sentir culpados por estarmos vivos? Qual é a conceito de moral que podemos utilizar quando estamos na eminência da morte? Salomon, personagem principal do filme, é um famoso e astuto falsário que se envolve e promove todas estas questões. Os magníficos dotes de falsificador lhe proporcionaram mulheres, fama, dinheiro e, em última análise, viver. Foi como um verdadeiro bom vivant e totalmente envolvido com o mundo das falsificações que Sally (Salomon) foi preso e enviado ao campo de concentração. A boa vida fora transformada em tormento. Nem herói, nem vilão. O ponto central do filme está para além desta proposição. A ambigüidade de Sally é representativa neste aspecto. Um contraventor que acaba salvando vidas por possuir uma insuperável habilidade criminosa parece não se abalar com as mortes de judeus que ocorrem do outro lado do muro. Enclausurado na Gaiola de Ouro (lugar onde ficaram presos os judeus que tinham as habilidades necessárias para a execução da Operação Bernhard) Sally cria uma espécie de terceiro lado. Existiam os judeus, que morriam do lado de fora, os alemães, protagonistas do terror, e os falsários, que dependiam da própria eficiência para sobreviver. Um processo doloroso, para alguns, mas eficiente na medida em que manteve aqueles homens vivos. Neste sentido, seria possível contribuir para os nazistas sem perder a dignidade? Essa questão assombrava Adolf Burger (August Diehl) a todo o momento. Vivendo entre a humilhação e a necessidade de sobreviver os falsários viviam uma grande dor psicológica e moral. Burger foi o responsável pelo atraso na produção dos dólares falsos e pelos principais questionamentos a Sally. Tal fato foi exaltado com grande valor moral ao final da guerra. Entretanto, naquele momento colocava todo o grupo em risco. Ademais, apesar de questionar as atitudes de Sally, Burger não deixou de utilizar as vantagens conseguidas com o processo de falsificação. Enfim, não faltaram ambigüidades. Mesmo tratando de um tema recorrente, Os Falsário traz novas e boas reflexões. Vale a pena ir conferir.
Encontro vocês no cinema!!!
Em 15 de junho de 2009
Filme: A Mulher Invisível – Comédia - Tempo de Duração: 105 minutos (Brasil – 2009) Direção: Cláudio Torres
Só mesmo em filme... rs rs rs
Mais uma comédia brasileira chega às telonas fazendo grande sucesso. Depois de Se eu fosse você 1 e 2 e Divã chegou a hora de A Mulher Invisível lotar as salas de cinema. Com um roteiro simples e uma equipe de globais bem sintonizada, e é claro com a Luana Piovani desfilando sua beleza com pouquíssima roupa fica difícil não acertar. Cláudio Torres, o mesmo de O Redentor (2004) e A mulher do Meu Amigo (2008) consegue trabalhar muito bem com as máximas que todos nós já conhecemos. Apesar de algumas vezes o resultado dos diálogos serem um pouco óbvios, a direção consegue atingir um bom resultado cômico. Pedro (Selton Mello) é abandonado pela esposa por amar demais. Notem, por amar demais. Nada mais contemporâneo, diante da obsolescência das relações, amar demais passou a ser um problema. Marina (Maria Luísa Mendonça), a esposa, diz que quer correr perigo e troca o apaixonado marido por um Alemão que conheceu num congresso em Fortaleza (ps. O Simpósio Nacional de História – ANPUH – este ano será em fortaleza, espero que não cause muitos danos). Diante da perda, Pedro se isola e passa a viver a solidão em toda a sua potencialidade. Carlos (Vladimir Brichta) encarna o papel do melhor amigo, notadamente reforçando a máxima do amigo “pegador” que não acredita no casamento, e ajuda Pedro a sair da lama. Claro que para isso outras mulheres são fundamentais. O Problema é que todas que aparecem na vida de Pedro são normais, ou melhor, imperfeitas, e não agradam. Afinal, estamos sempre procurando algo perfeito, só esquecemos que nós mesmos não somos. Num outro momento de grande depressão, eis que aparece Amanda (Luana Piovani). Perfeita. Sim, podem acreditar, perfeita mesmo. Utilizando mais uma idéia batida do “nosso” fetiche cotidiano, da vizinha linda e solteira que vai a sua casa lhe pedir açúcar e você acaba com ela em sua cama, o filme dá uma virada e, algumas vezes, a beleza da protagonista assume o lugar central na tela. O filme, neste sentido, é repleto de clichês. O homem apaixonado e, como conseqüência, bobo. O garanhão que ao final descobre o amor. A mulher mal amada casada com um homem tosco que vive a procura do grande amor romântico e, principalmente, a idéia de que a mulher ideal seja aquela que gosta de futebol, não sente ciúmes, é bonita, gostosa e boa de cama. Ufa...eta essa tal mulher ideal, onde encontramos uma dessa, hein....  Brincadeiras a parte, o filme não traz nada de novo. Mas, boas atuações, sobretudo do Selton Mello, garantem um bom espetáculo. Desculpem reforçar, mais a beleza de Luana também é um boa garantia.
Filme: Garapa – Documentário - Tempo de Duração: 110 minutos (Brasil – 2009) Direção: José Padilha A obscenidade da Fome Se retirarmos a representatividade sexual da palavra pornografia, poderíamos dizer que José Padilha e sua equipe fizeram um documentário pornográfico da fome. Com inúmeras tomadas em enquadramentos bem fechados, a película parece ter sido feita para chocar, provocar, ferir, ou, em última instância, horrorizar os espectadores. Assisti ao documentário acompanhado de pelo menos 50 pessoas, e - diferentemente de outras experiências - o término da exibição foi seguido por um silêncio sepulcral. Todos saímos da sala em silêncio e, ao fim e ao cabo, parecia que José Padilha tinha alcançado o seu objetivo. O documentário segue algumas características bem interessantes. Gravado em PB (preto e branco) e sem trilha sonora a obra parece querer deixar claro o universo em que iremos mergulhar. A fome não é colorida, nem tampouco precisa de acompanhamento musical. Ela é dura, cruel e está a nossa volta. Quase sem interferências dos profissionais envolvidos, a obra apresenta de forma didática o cenário da fome no Brasil. Neste sentido, vale ressaltar que apenas faz uma apresentação. Podemos dizer que, diante de uma sociedade do espetáculo, apenas torna a fome mais um objeto de espetacularização. Nada mais do que isso. Parece comum, levando em conta os últimos três expressivos trabalhos de José Padilha, a forma espetacular como o diretor trata os temas gerais do país. Notório em 174 (exclusão social) e Tropa de Elite (violência e desestrutura do Estado) e ratificado em Garapa (fome e miséria) a espetacularização das mazelas brasileiras parece ter se tornado a principal fonte de inspiração do diretor. Mais uma vez, assim como nos outros filmes, as classes média e alta são, ou pelo menos deveriam ser, colocadas para pensar. Há sempre uma subliminar culpabilidade ou, na melhor das hipóteses, um provocador mal-estar proporcionado com as produções. “Saímos” sempre com algumas questões em mente. Algo como: também temos culpa desse cenário? O capitão Nascimento está certo? Mas, como todo espetáculo, depois da praça de alimentação ou mesmo do bate papo no carro, aguardamos apreensivo pelo próximo. Gravado no Ceará e tendo como figura central a mulher, o documentário traça um panorama “geral” da fome e reforça algumas características da família brasileira. A primeira delas é a importância da mulher para a organização do lar. A segunda, a meu ver a mais complicada, diretamente ligada à natalidade, o diretor parece querer se redimir com os seus pares sociais. Os questionamentos feitos na parte final do documentário interrompem a linearidade e estrutura do trabalho e, sobretudo, acaba promovendo uma culpabilidade até então improvável. Quando se questiona as mulheres quanto ao que elas estão fazendo para se prevenir ou da dificuldade de ter filhos e alimenta-los, verificamos uma inversão dos papéis. Antes vítimas, agora culpadas. Parece ter chegado à hora de perdoar as classes média e alta. Afinal porque elas não param de ter filhos. Enfim, as famílias de Rosa, Robertina e Lúcia, a partir da “exploração” de todas as suas dores, se tornaram “famosas” com o documentário. Resta saber se o retorno financeiro será equivalente ao do Capitão Nascimento.
E AÍ, Vamos ao cinema??? Vejo vocês lá !!!
Filme: Defiance (Um Ato de Liberdade) - Drama - Tempo de Duração: 137 minutos (EUA – 2008) Direção: Edward Zwick
O desafio de sobreviver entre a bravura e a vingança
O mesmo diretor de Diamante de Sangue (2006) e O Último Samurai (2003) retorna a telona contando o drama dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Baseado no livro de Petter Duffy, The Bielski Brothers: The True Story of Three Men who Defied the Nazis, Saved 1,200 Jews and Built a Village in the Forest (Os Irmãos Bielski: A História Real de Três Homens que Desafiaram os Nazistas, Salvaram 1,2 mil Judeus e Construíram uma Aldeia na Floresta) o filme conta a história de três irmãos que ao tentarem sobreviver as investidas devastadoras da Alemanha Nazista acabam liderando um enorme grupo de judeus dentro de uma floreta na Bielorrúsia. A vida dos irmãos Bielski, Tuvia (Daniel Craig), Zus (Liev Schreiber), Asael (Janie Bell) e o pequeno Aron (George MacKay), fazendeiros judeus do interior da Bielorrúsia, retratada em filme através de uma grande montagem cinematográfica, mostra de forma primorosa o esforço dos judeus para sobreviverem à aniquilação gratuita do exército alemão. Notadamente marcado pela figura do irmão mais velho, Tuvia Bieslski, o filme aponta para alguns dramas de quem vive a experiência de uma grande e dolorosa tragédia. Após terem os pais assassinados e fugirem para a floresta, Tuvia retorna para se vingar e consegue matar os algozes de sua família. Tal fato gera no primogênito um grande mal estar que, a partir daquele momento, se esforça em não mais matar “gratuitamente”. Desse modo, Zus, o segundo na hierarquia familiar, busca legitimidade na ação do seu irmão para também poder vingar a morte de sua família (esposa e filha) e acaba apresentando um “novo” caminho para a resistência. No enfrentamento dos irmãos mais velhos, dois pontos são colocados. O primeiro é sobre a forma de resistência que será implantada pelo grupo de judeus que fugiam para a floresta. Tuvia optou pela resistência “pacífica”. Manter o maior número de judeus vivos seria o grande objetivo do seu trabalho como líder. Enquanto Zus, ao contrário, depois de algumas instabilidades, preferiu aderir ao enfretamento direto e com mais alguns companheiros de acampamento se aliou à frente Russa e partiu para o conflito. O segundo ponto, a meu ver o de maior sensibilidade, gira em torno da legitimidade para matar. Até que ponto uma tragédia nos dá o direito de também matar? Será gratuito matar aqueles que mataram seus pais? Matar nos torna animais ou heróis? Quais são os reais limites do homem? Conseguir da conta desta ambiguidade é o grande desafio colocado pelo filme. Daniel Craig, em grande atuação, consegue dar conta dessa proposta. Os judeus que são vitimizados pelas circunstâncias, são os mesmo que matam um soldado alemão capturado e desarmado. Tudo ocorre sobre o olhar frio e a passividade de Tuvia. Ou seja, O mesmo que reprova a sede de vingança do irmão (Zus) se coloca inerte quando homens e mulheres, sobre o seu “comando”, matam com as próprias mãos seu inimigo. Será que conseguiríamos apontar boas e suficientes justificativas para legitimar essa morte? Será necessário fazer isso? O filme aponta também para outros aspectos interessantes. Podemos destacar, neste sentido, a dinâmica interna vivenciada dentro do grupo dos fugitivos. Malgrado ocuparem o mesmo lado, judeus combatentes começaram a requisitar regalias frente aos não-combatentes. Neste aspecto, a figura messiânica de Tuvia, com a “aprovação” do restante do grupo, mata a sangue frio o seu opositor, também judeu. A experiência do seu irmão Zus no exército russo, também colabora para um entendimento mais complexo desta mesma história. Um dos homens que acompanha Zus foi espancado e humilhado por um oficial russo por ser judeu, ainda que estivessem lutando do mesmo lado. Enfim, Apesar dos temas holocausto, Nazismo e Judeus serem recorrentes na cinematografia mundial, UM ATO DE LIBERDADE é uma ótima opção para quem quer ir ao cinema e assistir a um bom filme. Fundamentalmente por apresentar ótimas atuações, bem como um grupo de judeus (marcado pelos irmãos Bieslski) e a sua experiência na Bielorrússia até então desconhecidas do grande público e, sobretudo, por distender a compreensão humana e apontar momentos onde valores tão sólidos na sociedade são invertidos e legitimados com rápida aprovação.
De olho nos lançamentos, Seguimos na telona !!!!
Terceira Quinzena - Abril
Filme: Tony Manero – Drama - Tempo de Duração: 97 minutos (Chile – 2008) Direção: Pablo Larrain
Dançando, matando e falando sobre ditadura
O filme de Pablo Larrain apresenta a história tosca de Raúl Peralta (Alfredo Castro), um fascinado por Tony Manero (personagem de John Travolta em Os embalos de sábado à noite - Saturday Night Fever, 1977) tendo como pano de fundo a ditadura de Pinochet no Chile. Para além dos aspectos de facínora de Raúl, o filme destaca o caráter sombrio que a cidade de Santiago vivencia nos anos do regime ditatorial. Tal fato fica notório em dois aspectos fundamentais. O primeiro, envolve a iluminação do filme. Grande parte do filme é feito com pouca iluminação, atribuindo um tom ameaçador ao ambiente em que é circunscrito o filme. Neste sentido, Quando filmado nas ruas, apesar da luminosidade, o tom ameaçador da ausência de luz é substituído por personagens sempre envolvidos em um clima de tensão (correndo pelos cantos, militares pelas ruas, perseguições e violência). O segundo aspecto é visto na própria representação da cidade. Uma cidade vazia e, sobretudo, dura com aqueles que arriscam andar pelas suas ruas. A alternância destes dois aspectos marca o filme de maneira clara sobre o ambiente vivenciado na ditadura chilena. Pablo Larrain, e toda a sua paixão por Tony Manero, nos servem como ponto de partida para pensarmos sobre o ambiente geral do Estado. A violência gratuita e, fundamentalmente, “justificada” quando empregada para alcançar seus objetivos, tão emblemáticas no personagem central, simbolizam bem adequadamente o estado “doentio” em que o país se encontra. Obsessão e perversão dão o toque freudiano ao filme. Os americanos não ficam de fora da película. Representado pelo ambiente da “discoteque”, marcada pela falta de perspectivas, o ambiente americanizado é retratado através do concurso de imitações e da própria figura de Tony Manero. Ou seja, em ambos os casos, simulacros dos modelos americanos que “contaminam” a América Latina naquele período. A vitória no concurso de imitadores consagraria Raúl. Seria o Gozo mais espetacular. No entanto, o vazio da derrota e o final repentino do filme nos levam ao abismo da condição humana, bem como a imaginar a manutenção dos dramas do Estado de Sítio proclamado por Pinochet. A derrota, o olhar final e doentio de Raúl apontam o caminho do personagem. Ao mesmo tempo em que frases como: “Já é muito tarde pra sonhar” e “não podemos falar mal do governo” mostram a ausência de perspectiva para o cidadão. Enfim, apesar de transitar entre tosco e o grosseiro, o filme levanta boas reflexões sobre o ambiente e as experiências da ditadura no Chile.
Filme: Divã – Comédia - Tempo de Duração: 93 minutos (Brasil – 2009) Direção: José Alvarenga Jr
A metamorfose da vida.
A comédia estrelada por Lília Cabral (Mercedes) além de divertidíssima nos leva a refletir sobre as nossas vidas. Ao som de rapte-me camaleoa, de Caetano Veloso, o filme já inicia dando o tom do que poderíamos chamar de drama particular de cada um. Todos precisamos de um analista, já diria uma grande amiga. Com a Mercedes não foi diferente. Não sabendo por que, aos 40 anos, casada e com dois filhos, tendo uma vida rotulada como “perfeita”, procura um analista. A partir daí os passos e descompassos de Mercedes, com muito humor, nos mostra a complexidade da vida. Notadamente, não só de risos vive o homem e, assim sendo, a dor se torna também uma marca do filme. Afinal, não há mudanças sem dor. Neste sentido, a comédia transcende o habitual, dos risos rasgados e explícitos, e sugeri boas reflexões sobre as mudanças e tudo aquilo que a vida pode nos propor, ou mesmo impor. Não irei entrar no debate do filme ser novelesco ou não, o fato é que a obra consegue de maneira muito eficaz dialogar com o público. Boas risadas são garantidas. Por apresentar temáticas bem comuns ao cotidiano de um casal contemporâneo (intimidades desgastadas, monotonia sexual, futebol versus discutir relação, a dúvida quanto a ser desejada depois dos 40 e formas de lidar com a traição) o filme se torna leve e, fundamentalmente, compreensível. Nada fica no obscuro. Desse modo, o sucesso da peça, protagonizado também pela Lília Cabral, pode ser confirmado pelo filme. Quanto ao elenco, podemos dizer que há uma ótima sintonia. Pouco importa serem na maioria atores da Globo. José Mayer(Gustavo), Alexandra Richter (Mônica), Cauã Reymond (Murilo), Reynaldo Gianecchini (Theo) Eduardo Lago (Carlos Ernesto) e Paulo Gustavo (René) deram um bom clima ao filme. Por fim, o livro de Martha Medeiros tem gerado bons frutos (peça e filme). A torcida é para que o cinema brasileiro continue nesse caminho produzindo bons filmes, seja como comédia ou em qualquer outro gênero.
Segunda Quinzena - Abril The Visitor - O VISTANTE - Direção: Thomas McCarthy - (EUA - 2008) – O filme retrata a história de um solitário professor universitário que ao ser enviado para New York, para apresentação de um trabalho, vê a sua vida mudar completamente de rumo. Marcado pela arrogância, mentira e pela solidão o professor Walter Vale (Richard Jenkins) representa um acadêmico insensível na universidade onde leciona. Notadamente recluso após a morte da sua esposa, Walter vê nas aulas de piano um elo com o passado. Caracterizado por uma nostalgia e por uma frieza sem tamanho, balizados pelo som “triste” de um piano ao fundo e pela fotografia de uma pequena cidade americana, o cenário inicial do filme é primoroso na construção do personagem vivido por Jenkins. O mais interessante é que todo este cenário é reconstruído com a ida de Walter para New York. Resolvendo ocupar o seu apartamento, abandonado há vários meses, Walter se depara com um casal de emigrantes ilegais, vividos por Haaz Sleiman (Tarek Khalil) e Danai Jekesai Gurira (Zainab), que o faz transformar completamente o seu olhar para vida. A segunda parte do filme é momento das grandes mudanças e onde alguns pontos de reflexão podem ser apontados. A primeira grande alteração ocorre com o professor. O primeiro sorriso do personagem somente acontece após o contato com os imigrantes. Neste sentido, a presença do outro, do diferente, é confirmada como fonte das mudanças do indivíduo. Há ainda, um rompimento com o passado de tristeza marcado pela musicalidade e alegria dos batuques africanos e, significativamente, pela troca dos óculos feita pelo professor (este último parece apontar para a emergência de um novo olhar para a vida). Chama a atenção também a reflexão dos imigrantes no país da “liberdade”. O imigrante será sempre um imigrante, nem o green card retira dele o estigma do estrangeiro. Enfim, a ótima atuação de Richard Jenkins (indicado ao oscar de melhor ator - 2009), muito superior a realizada na comédia QUEIME DEPOIS DE LER, dá um bom suporte ao filme e faz com O VISITANTE seja um bom motivo para ir ao cinema. Zack and Miri Make a Porno – (Pagando Bem, Que Mal Tem?) - Direção:Kevin Smith – (EUA – 2008) – Uma garantia de boas gargalhadas. A comédia retrata a vida de dois amigos, Zack Brown (Seth Rogen) e Miriam Linky (Elizabeth Banks), que diante de uma grande dificuldade financeira resolvem reunir alguns amigos e fazer um filme pornô. O que pode parecer inusitado, quanto à escolha da solução de um problema financeiro, revela uma realidade bem próxima de alguns falidos “famosos” brasileiros. Nos últimos anos há um crescente movimento em tornar celebridades falidas em estrelas do mundo pornô (Alexandre Frota, Rita Cadilac, Gretchen, entre outros são “bons” exemplos). Na verdade, diferentemente do que retrata o filme, a dificuldade nem precisa ser tão devastadora assim. Outro destaque do filme gira em torno das potencialidades das novas tecnologias (especialmente celular e internet). Até mesmo um pequeno vídeo filmado com um celular pode tornar uma pessoa “famosa” se este for parar na internet. Bem, apesar da tradicional descoberta do amor, já esperada entre os protagonistas, o filme aponta para questões bem relevantes da contemporaneidade. Além, é claro, de proporcionar boas risadas. CHE - Primeira Parte - Direção: Steven Soderbergh - (EUA / França / Espanha 2008)Sendo um dos personagens históricos mais vendidos no mundo, Ernesto Guevara continua em alta. Che, part one, retrata a chegada do médico argentino a Cuba com o intuito de ajudar Fidel Castro contra o governo de Fulgêncio Batista. Produzida em duas partes a obra completa vai percorrer os anos da revolução cubana, bem como os seus desdobramentos. Bem diferente dos comuns e panfletários filmes e documentários que são produzidos acerca da figura Che, o filme apresenta uma ótima sobriedade e, notadamente, avança na apresentação do homem Ernesto Guevara (foge da enquadramento simplista do mito). Muito bem interpretado por Benicio Del Toro (Ernesto "Che" Guevara), o personagem central é retratado longe do maniqueísmo habitual e, algumas vezes, tem a sua importância dissolvida diante dos desdobramentos do próprio conflito. Steven Soderbergh, o mesmo de Traffic (2000), parece ter conseguido apresentar um novo e interessante olhar sobre a vida do guerrilheiro e médico Che. Temos agora que aguardar a segunda parte para avançar no debate. Antes de terminar, tenho que ressaltar a presença de Demián Bichir, como Fidel Castro e Rodrigo Santoro, como Raul Castro. Ambos com passagens bem rápidas, não comprometedoras, pelo filme. Por Ricardo P. dos Santos Historiador
Primeira Quinzena – 1 a 15 de Abril PALAVRA ENCANTADA – Direção de Helena Solberg - (Brasil -2009 – 86 minutos)
Um belíssimo documentário sobre o universo que podemos desenvolver a partir da palavra, Seja cantada ou falada. Os depoimentos são muito interessantes e, algumas vezes, reveladores. Daria um grande destaque, para além de Chico Buarque e Lenine, a participação de Tom Zé (foi genial) e as entrevistas com Caetano Veloso (reprodução de entrevistas da época dos grandes festivais. A palavra desbunde fica bem clara com Caetano). A produção consegue um ótimo resultado, sobretudo por ter apresentado uma grande variedade de depoimentos. Para quem puder vale assistir depois uma produção chamada Bananas is my business da mesma diretora. Destaque também para as imagens dos antigos carnavais, uma fonte de boas reflexões. Enfim, Poesia, música e cinema numa reunião que deu certo. GRAN TORINO - Dirigido e Produzido por Clint Eastwood - (EUA/Austrália – 2009 - 116 minutos) –
Completando 79 anos agora no dia 31 de maio Clint Eastwood mantém o vigor dos grandes papéis. Depois de mais de 50 filmes sua atuação é impecável. Walt Kowalski (Clint E.), Personagem central do drama, é um veterano de Guerra, conservador que passa a conviver com vizinhos imigrantes e tem a sua vida transformada. Um homem de difícil acesso e carregado pelas heranças da Guerra da Coréia Walt serve como bom pano de fundo para velhas máximas do cinema americano. O herói nativo, e por isso legítimo, será aquele que potencialmente irá resolver os problemas da cidade/bairro/país, O durão da Guerra que se sensibiliza com as surpresas da vida, bem como o estrangeiro como fonte dos problemas das cidades americanas são apenas alguns pontos que podem ascender no filme. No entanto, Gran Torino surpreende com as belíssimas atuações e com o desdobramento da história.
ENTRE OS MUROS DA ESCOLA - Entre les murs - Laurent Cantet (França – 2007 – 128 minutos)
Baseado no livro do diretor/ator Laurent Cantet o filme é um ótimo retrato da educação pelo mundo. Apesar de tratar de um microcosmo bem pontual, a experiência do autor numa escola da periferia francesa, o filme tem um realismo muito convincente. Tal fato potencializa boas reflexões comparadas (periferia Francesa versus periferia brasileira é uma delas). A atuação dos jovens (não)atores é surpreendente. A fidelidade como é representada a sala de aula nos remete a boas e necessárias indagações. Diferentemente do que costumamos ver em filmes onde a escola é o cenário central (professor salvando turmas/ turma de rebeldes se regenerando/ amores entre jovens e o caminho para a universidade) Entre os muros da escola apresenta uma complexidade bem próxima daquilo que assistimos nos nossos dias. Vale atentar para os diálogos entre os professores, notadamente o que acontece na sala dos professores e na reunião dos mesmos e, fundamentalmente, para questão da construção da identidade francesa, visível no debate entre alunos. O filme consegue ampliar e apresentar o drama da educação na contemporaneidade de forma muito contundente. Marcado pelo descaso dos alunos e por uma escola repleta de aspectos ultrapassados a obra nos remete a necessidade de pensarmos a educação, o jovem, o professor, a escola e, sobremaneira, as suas relações com o TEMPO PRESENTE. INÚTIL - (Useless) JIA ZHANG-KE - (China – 2007 – 81 minutos) –
Severo. Sempre quiz utilizar essa palavra e, nesse filme, ela se adequou muito bem. Um filme com a métrica bem distante daquilo que estamos acostumados (filmes hollywoodianos/rápidos) é no mínimo uma nova experiência para aqueles que vão assistir. Lento, denso e com uma construção bem diferenciada, o filme apresenta o mundo da moda, ou melhor, da construção daquilo que chamamos de moda, em três esferas bem distintas (cenário industrial, atêlie, caseiro). A singularidade de cada um desses espaços e, fundamentalmente, o processo de alienação emergente sobre o resultado dos diferentes esforços ali empregados é, a meu ver, o mote central da obra. A consciência destes processos gera o grande eixo da reflexão. O que é moda??? Como se dá o processo de legitimidade desse campo tão abstrato? Quem define e quem fará a escolha daquilo que será moda??? Enfim, sem nenhum ator conhecido e, sobretudo, com uma construção na contra mão dos nossos dias velozes e furiosos o filme nos permite experimentar uma nova sensibilidade fílmica. Valeu Galera, Grande Abraço, Ricardo Bull - Nos encontramos por aí
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