quinta, 24 de julho de 2014 - 14:43h

Iraque: entre o terrorismo e a guerra civil.

Iraque: entre o terrorismo e a guerra civil.
Por Francisco Carlos Teixeira Da Silva
Laboratório de Estudos do Tempo Presente/UFRJ

Após a derrota eleitoral de 7 de novembro de 2006 o Presidente Bush viu-se na contingência de alterar, de alguma forma, a condução da guerra no Iraque. A publicação do chamado Relatório Hamilton-Baker sobre o Iraque – propondo amplas negociações regionais ( Síria/Irã ) ao lado de um calendário progressivo de desengajamento – foi prontamente descartado
(1) . Na verdade, mesmo face a demissão de Donald Rumsfeld ( depois do afastamento de outros neo-cons, tais como Paul Wolfowitz, Richard Perle ou John Bolton ) não representou, de forma alguma, uma virada realista – no sentido do Realismo em Relações Internacionais – na política externa e de defesa dos Estados Unidos. A própria Condi Rice manteve seu papel central na condução da política externa americana – como na defesa de uma solução militar para a crise libanesa em julho de 2006 – como ainda cresceu a influencia de lideranças belicistas, como foi o caso de Elliot Abrams, na condução do Conselho de Segurança Nacional, além, é claro, do Gabinete do Vice-Presidente Dick Cheney (2) .

Soldados americanos do 501st Military Police Company, 1st Armored Division em operação de controle de terreno urbano (MOUT) ( Treinamento 2007 ). A maior parte, e mais difícil, das operações no Iraque é de policiamento. DoD Foto: Martin Greeson, U.S. Army. (Released). Fonte: DoD/USA.

Foi através de Abrams que um plano conservador para o Iraque – formulado no âmbito do think tank conservador American Enterprise Institute – transformou-se na nova política para o Iraque. Os pontos centrais da proposta da Enterprise Institute, assumidos pelo novo Secretário de Defesa Robert Gates, resumem-se em:

i.   Promover uma intensificação – surge – no envolvimento americano no Iraque, com o envio de 25/30 mil novas tropas para a região;
ii.   Organizar um gigantesco plano de segurança para a província de Bagdad, visando garantir o funcionamento das instituições do governo civil iraquiano;
iii.  Diminuir, da mesma forma, o número e intensidade dos atentados, visando dar a opinião pública americana a sensação de “estarmos ganhando esta guerra”;
iv. Aumentar a pressão sobre os países vizinhos do Iraque, em especial Síria e Irã, visando cortar o fluxo de combatentes e armas da resistência;
v.  Manter conversações com grupos “razoáveis” da resistência nacional iraquiana, ex-baasistas, isolando os elementos “estrangeiros” pertencentes a Al-Qaeda;
vi. Evitar, por todos os meios possíveis que a oposição democrata estabeleça um calendário de desengajamento para a guerra.


Contudo, tal agenda mostrou-se de um lado pouco realista – a mobilização de apenas 21000 novas tropas – ou, ao mesmo tempo, atrasado na tomada de decisão. Depois do atentado contra a Mesquita Dourada de Samarra – em fevereiro de 2006 – o conflito iraquiano degenerou em evidente guerra civil. As ações de milícias xiitas e sunitas multiplicaram-se, para além das atividades dos “estrangeiros” da Al-Qaeda.

Alguns dados fornecidos pelo próprio CENT.Com – o Comando Militar Americano da Ásia Central – e por entidades autônomas mostram que a guerra, no último ano, agravou-se e tornou-se um conflito fora de qualquer controle. O ano que medeia entre março de 2006 e março de 2007 constitui-se nos piores meses da guerra, com o largo aumento de ataques e, consequentemente, de baixas. Julho de 2007 foi – até este mês de março próximo passado – o mais cruel momento da guerra, com 1417 baixas civis só em Bagdad.  No seu conjunto, os índices da guerra são tremendamente negativos para a Administração Bush:

- os ataques fatais com morteiros quadruplicaram em 2006, passando de 73 para 289;

- homens-bomba, carros-bomba e a tática de “roadside bombing” dobraram no mesmo período, passando de 712 para 1476;

- os ataques massivos com bambas – com mais de 50 mortes cada – dobraram também em 2006, passando de 9 para 17.

O quadro resumo abaixo mostra as tendências do conflito em curso naquele país:


Tais índices desmentem os esforços de “securitizacão” empreendidos pelo comando militar americano e apresentam forte similitude com as práticas de terror empregadas pelo Vietcong em Saigon ( e que o obrigaram os Estados Unidos a retirarem seu pessoal para o complexo fortificado de Long Bihn ).



A distribuição dos ataques também preocupa enormemente. Embora o epicentro das ações terroristas e da insurgência continue sendo Bagdad – malgrado a operação de segurança em curso desde o início de 2007 – podemos visualizar ações armadas em todo território iraquiano, como vemos abaixo:


Ao mesmo tempo o presidente Bush nomeou o General David Petraeus para o comando das tropas no Iraque, tendo como adjunto o General  Ray Odierno, ambos conhecidos pela justificativa de se passar de uma fase “de regras de engajamento restritivas” para uma fase “ de regras de engajamento permissivas”. Ambos os oficiais estão diretamente ligados à confecção do novo Manuel de Contra-Insurgência das FFAA americanas ( COIN ). O próprio General Petraeus, detentor de um doutorado em relações internacionais em Princeton, defende claramente a tese que (i) o poder civil “atrapalhou a ação americana” no Vietnã, não tendo tido paciência e vontade de vencer a guerra e, ainda, (ii) que a ação em larga escala, com armamentos modernos – como a artilharia, por exemplo – pode enfrentar a insurgência. O General Odierno chegou a declarar que sua experiência no Iraque aconselha ao uso, em larga escala, de bombardeamentos que cunhou de “pro-ativos”, mesmo nos cenários de contra-insurgência (3).

No entanto, a Al-Qaeda não deixou de agir. No dia 1 de abril de 2007 um caminhão-bomba, aparentemente disfarçado sob a forma de distribuição de alimentos, matou 152 pessoas e feriu outras 347, em Tal Afar, no norte do país. Este região – 90 quilômetros da fronteira síria – foi alvo de várias operações americanas de “securitização” (4) , constituiu-se em importante área de trânsito de insurgentes entre a Síria e o Iraque. O mega atentado em Tal Afar era um claro recado da Al-Qaeda sobre a inutilidade de blindar Bagdad. Contudo, o comando americano entendia o atentado, ainda naquele momento, como prova que os insurgentes estrangeiros não mais podiam chegar a capital iraquiana. O impacto do atentado não havia, contudo, terminado. Revoltados com a crueldade do ato terrorista, policiais e milicianos xiitas invadiram o bairro sunita de Tal Afar e mataram 80 pessoas... Em reação a insurgência sunita explodiu várias bombas em Bagdad e Jalis, matando 140 pessoas... Em plena vigência do novo  plano de segurança americano para o Iraque, dava-se a mais sangrenta semana da guerra, com mais de 400 mortos. O horror, contudo, ainda não havia terminado. Não só a Al-Qaeda mostrou-se capaz de manipular os diversos grupos insurgentes, lançando sunitas contra xiitas, como ainda mostrava que Bagdad não podia ser securitizada. Multiplicaram-se os atentados na capital e em Sadr City – mais de um milhão de habitantes, nos subúrbios de Bagdad. Em 22 de marco de 2007 – em frente de televisões de todo o mundo – um foguete explode a 50 metros do Premier Nuri al-Maliki e do Secretário da ONU, Ban Ki-moon, na área mais fortificada de Bagdad.

Para coroar o processo de humilhação da política americana no país dois atentados-espectáculo são organizados: no dia 12 de abril de 2007 um caminhão-bomba destrói um dos cartões-postais de Bagdad, a imensa Ponte Sarafiya, matando sete pessoas; poucas horas depois um homem-bomba se explode no interior do Parlamento iraquiano, matando oito pessoas – três deputados entre eles.

As baixas gerais no conflito também não cessaram de crescer, com cerca de 67.364 baixas civis iraquianas – são fontes absolutamente controladas, a partir de registro civil iraquiano. Outras fontes, como a prestigiosa revista médica americana The Lancet falam em cerca de 500 mil mortes, somando as pessoas desprovidas de auxílio médico, subnutridas e mortes por endemias, em especial crianças. A polícia – e os militares – iraquianos é, por sua vez, um alvo constante das ações tanto dos terroristas “estrangeiros” da Al Qaeda, quanto da resistência nacional iraquiana, já atingindo a cifra 6486 baixas.

Soldado do novo exército iraquiano ( 3rd Battalion, 1st Brigade, 3rd Iraqi Army Division ) em opreção em Ramadi, 2006. DoD Foto: Sgt. Francisco Olmeda, U.S. Marine Corps. (Released). Fonte: DoD USA.


Entre as forças da Coalizão as baixas também são constantes: os americanos já perderam 3301 soldados, enquanto o Reino Unido 142 e as demais forças em presença perderam, em seu conjunto, 125 homens. Dois outros dados são reveladores. As forças terceirizadas – apoio e segurança, que constituem o “segundo exército no teatro de operações”, com cerca de 40 mil homens – teve perdas de 393 homens, embora não esteja na linha de frente dos combates. Um dado ainda mais revelador é o grande número de americanos entre os terceirizados mortos. Por sua vez os jornalistas pagam um alto preço para manterem o público informado, já tendo ocorrido 117 baixas de profissionais da mídia (5) .

A organização Al-Qaeda mostrou, assim,  – mesmo depois da morte de Abu Misab al-Zarqaui, em junho de 2006 – uma fantástica capacidade reorganização, processo em curso desde 2005, quando os Estados Unidos perderam o momentum na guerra do Afeganistão e as últimas chances de matar Bin Laden. As últimas semanas, no Iraque muito especialmente, a Al-Qaeda mostrou-se capaz de dispor de meios para golpear os EUA e o governo de Bagdad a qualquer momento e em qualquer lugar, com extrema rapidez e poder de reação. Tal capacidade de ação mostra, hoje, a falência do novo plano americano para o Iraque e um risco real de colapso das medidas de segurança mesmo no interior da "Green Zone".

Recolocando a Guerra do Iraque no plano de uma estratégia geral de combate ao terrorismo, a situação parece ainda mais complicada. Depois do início do ano, quando a Al-Qaeda anunciou a criação da organização Al-Qaeda no Magreb – uma fusão de vários grupos salafitas do norte da África que passam a atuar com coordenação e métodos típicos da organização de Bin Laden - a segurança na Argélia foi fortemente abalada. Em 11 de abril – um dia antes dos grandes atentados em Bagdad – varias explosões sacudiram Argel, matando mais de trinta pessoas, no mais grave atentado depois da guerra civil nos anos ´90 (6) . Um dia antes, em 10 de abril, três homens-bomba haviam se explodido em Casablanca, Marrocos. Ações semelhantes foram detectadas na Tunísia e na Mauritânia, expondo o imenso arco de ações da Al-Qaeda nos paises do Mediterrâneo.

Sargento  Kenneth Strong, do exército Americano (4th Battalion, 23rd Infantry Regiment, 172nd Stryker Brigade Combat Team) ,  e seus companheiros desembarcando de UH-60 Black Hawk em Tall Afar, Iraque, 2006. DoD photo by Staff Sgt. Jacob N. Bailey, U.S. Air Force. (Released) Fonte: DoD USA.

A entrada da Al-Qaeda no cenário do norte da África fez-se com extrema rapidez e eficiência. Na Argélia o Grupo Salafista para a Pregação e Combate (7) , herdeiro da guerra civil dos anos ´90 transformou-se na principal ameaça atual para o governo laico de Argel. Desde 2003 as relações entre os duas entidades eram conhecidas, culminante na transformação dos Salafista argelinos na Al-Qaeda para o magreb Islâmico. Seu principal líder é Abdelmalek Drudkel el-Wadud, que enfrenta com dureza a República argelina. Contam com cerca de 500 militantes ( cf. fontes argelinas, ou 5000, cf. fontes da Al-Qaeda ) e já possuem um histórico de extrema violência no país (8).

As ações salafitas na África são, contudo, mais amplas. Depois de uma ação fulminante dos etíopes, visando impedir o estabelecimento de um governo Salafista na Somália – através da União dos Tribunais Islâmicos, do xeque Hassan Dahir Awyes – com apoio dos Estados Unidos, a reação islâmica somali se reorganiza e contra-ataca. Outras ações ocorrem no Sudão, Mali e Tchad, ameaçando criar uma imensa área de instabilidade em todo o Norte da África e na sua franja sub-sahariana.

No extremo do Arco das Crises ( cf. Z. Brezenzki ) a luta no Afeganistão tornou-se mais dura e sangrenta, com um repentino aumento das baixas da NATO, especialmente de ingleses, canadenses e americanos. Depois de 2005 – largamente em função da secundarização do teatro afegão em face do Iraque nas preocupações americanas – a guerra torna-se mais intensa, com a reorganização dos talibães-Al Qaeda. Da mesma forma, os programas de erradicação da heroína falham, com o país batendo o recorde, em 2006, da produção de ópio, com 6.1 mil toneladas ( 92% da produção mundial ).

No interior da NATO – 37 mil homens no país – o debate sobre como proceder em face da ressurgência talibã gera inúmeros impactos e crise entre os governos europeus e americano. O centro do debate é a Espanha, que perdeu vários soldados nas últimas semanas e a Itália, onde as relações com os serviços especializados americanos, em especial a CIA, levaram a queda e reorganização do governo Prodi. A crise sobre o seqüestro de suspeitos na Itália e a colaboração do SISMI com ações de cobertura da CIA ainda não foram digeridas. As últimas ações do SISMI no Afeganistão, de onde retirou o jornalista Daniele Mostrogiacomo , do La Repubblica, – mas, deixaram ser degolados o chofer e o tradutor ( que não foram trocados por prisioneiros extremistas enquanto a vida de Mastrogiacomo valeu a libertação de cinco chefes talibães que estavam na prisão em Kabul ). Da mesma forma, fontes americanas e mesmo italianas, consideraram a operação por demais arriscada ( além de desmoralizante ao “apreçar” diferentemente vidas humanas ), e capaz de provocar uma intensificação de seqüestros de estrangeiros ( como no Iraque ) visando trocas e resgate.

Em suma, neste início de abril, as condições iniciais que a Administração Bush visualizava para impor um “novo curso” na guerra no Iraque não parecem, de qualquer forma, endossar o otimismo presidencial. Os planos de securitizacão de bagdad falharam e a insurgência – tanto de nacionais iraquianos como a formada por “estrangeiros” da Al-Qaeda – parecem manter-se na ofensiva. A situação militar, no teatro de operações, assemelha-se – nos seus aspectos políticos e estratégicos – ao Vietnã, onde cada “novo fracasso gerava nova escalada”.
ANEXO:
http://icasualties.org/oif/


NOTAS:
1.   Ver a íntegra do relatório em  www.usip.org/isg/iraq_study_group_report/1206/index.html

2.  Sobre a decisão de fazer a guerra no Iraque e a atuação dos neoconservadores ver: Galbraith, Peter W. The End of Iraq: how american incompetence created a war without end. Nova York, Simon & Schuter, 2006; Mann, James. Rise of Vulcans: teh history of Bush´s ar cabinet. Nova York, Penguin Books, 2004 e Ricks, Thomas. Fiasco: teh american military adventure in Iraq. Nova York, Penguin Books, 2006.
3.   Sobre o Novo Manual de Contra-Insurgência ver: http://usacac.army.mil/CAC/Repository?Materials/COIN-FM3-24.pdf
4.  Operamos aqui uma distinção, originária da língua inglesa e de uso corrente hoje nos procedimentos de segurança anti-terrorismo entre “safe”, ou “safety”, e “security”. Os duas primeiras expressões seriam mais amplas e duradouras, enquanto “security” remete a áreas ou setores limitados colocados sob controle de forças especiais de segurança.
5.   Para maiores detalhes ver: http://www.countthecasualties.org.uk/; http://www.countthecasualties.org.uk/; http://icasualties.org/oif/ e aqui
6. Dois atentados simultâneos com homens-bomba – uma das marcas da Al-Qaeda, simultaneidade e “martírio” de militantes – levaram pânico ao Palácio presidencial em Argel, matando 12 pessoas e ferindo outras 135, enquanto uma delegacia de polícia, em Bab Ezzouar, nos subúrbios da capital, matou 12 pessoas e feriram 87 outras.
7. Retomamos aqui a denominação “salafita” – ou pior, salafista – como denominação genérica dos diversos grupos fundamentalistas islâmicos que consideram a influência ocidental destruidora do Islã e, assim, pregam um retorno – “salafyia”, retorno às origens – às tradições ancestrais do Islã.
8. Em outubro de 2006 atacaram várias delegacias de Argel, deixando três mortos; em novembro 15 soldados foram mortos em combates diretos com os extremistas islâmicos em Ain Defla e Bouira; em dezembro atacaram um ônibus com funcionários estrangeiros de uma empresa de prospecção de petróleo, matando dois deles e em fevereiro de 2007, sete bombas sincronizadas – uma clara assinatura da Al-Qaeda – matou 13 pessoas em Argel.

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