sexta, 01 de agosto de 2014 - 10:52h

Resenha: Entre os Muros da Escola

Resenha: Entre os Muros da Escola (“Entre les Murs”), de Laurent Cantet. Haut et Court, França, 2008.
 
 

por: Regis Argüelles
Mestrando em Educação pelo PPGE/UFRJ,
professor de História das redes municipais de Duque de Caxias(RJ) e Teresópolis(RJ), ex-pesquisador do TEMPO/UFRJ.
 
Ganhador da Palma de Ouro do Festival de Cannes em 2008, “Entre os Muros da Escola”, dirigido por Laurent Cantet, busca desvelar o dia-a-dia de uma escola francesa contemporânea. Fazendo uso de técnicas de documentário e de atores que são os próprios personagens na vida real, o filme mostra força ao tratar de forma contudente problemas educacionais que vão além da realidade francesa. Nesse sentido, o flime pode ser visto como importante painel de desafios colocados à mesa dos educadores de hoje.

Há, todavia, dentro do campo da sociologia da educação, uma forte crítica em relação a esses paradigmas. Em primeiro lugar, questiona-se o caráter meritocrático da educação, dado o  adensamento da população escolar no mundo ocidental a partir da segunda metade do século passado. Esse adensamento, na verdade, representa a entrada maciça das classes trabalhadoras na educação formal, de acordo com a definição  de que a igualdade de oportunidades supõe a igualdade de acesso. A expansão do ensino a “todos” instauraria aí o regime de livre competição, no qual se sobressaem, naturalmente, os melhores. Esse modelo, entretanto, gerou decepção, já que constatou-se que as desigualdades sociais são elemento fundamental na definição de desigualdades escolares. Na maioria dos casos, a “escola para todos” confirma as desigualdades sociais, funcionando mais como um elemento de reprodução do que como ferramenta de produção de justiça social. O crescimento da população escolar, e também a expansão da escolaridade mínima obrigatória, definem uma segunda questão, que se coloca à escola contemporânea: como o ensino formal deve lidar com os diferentes grupos sociais, ou seja, que valores a escola deve definir como fundamentais na formação do sujeito? E, mais ainda, quais são os limites dessa educação escolar, dados os outros elementos constitutivos desse mesmo sujeito, tais como origem de classe e família, dentre outros?

 “Entre os Muros da Escola” aborda essas diversas questões, apresentando os conflitos presentes em uma unidade escolar de um subúrbio de  Paris. A narrativa concentra-se em uma turma de 8º ano, mais precisamente nas aulas de francês ministradas por François Marin (François Bégaudeau), e desdobra-se nas próprias relações diárias que se dão entre os diferentes atores presentes em um ambiente escolar: alunos, direção, professores, pessoal de apoio.

Marin se apresenta como um professor dedicado que, entretanto, esbarra na resistência à cultura escolar por parte de seus alunos, bem como nos conflitos presentes em uma turma composta, em sua maioria, por alunos oriundos de famílias imigrantes. Esses conflitos e resistências aparecem, continuamente, na sala de aula, envolvendo Marin e seus alunos e, muitas vezes, os próprios alunos entre si. Representações de racismo, sexismo, disputa entre identidades nacionais e preconceito de classe  são, então, comuns nesse espaço, e reverberam em todas as instâncias da escola.

O diretor Laurent Cantet busca fugir das armadilhas de estabelecer juízos de valor aos diversos atores envolvidos no conflito. Assim, “Entre os Muros da Escola” pode ser visto como uma crítica, até certo ponto ácida, dirigida a professores, alunos e diretores, bem como ao sistema educacional francês. Não há, no filme, a definição clara de quem são os bons e os maus na arena de conflito e, por conta disso, Cantet escapa de produzir uma obra partenalista em relação à escola, ou a algum de seus agentes. Esse é um dos grandes méritos do filme.

Apesar de retratar o microcosmo de um problema da escola francesa comtemporânea, a denúncia feita em “Entre os muros da escola” pode ser transplantada para outras realidades, como a brasileira. Afinal, podemos dizer que estamos diante, no Brasil,  de um quadro de universalização do ensino fundamental, bem como de expansão gradativa do ensino médio, ambos com participação majoritária da escola pública. Esse aumento do acesso tem desvelado problemas estruturais do nosso sistema de ensino, principalmente no que diz respeito à qualidade e à natureza do ensino oferecido aos filhos das classes menos favorecidas. Os limites da escola pública brasileira, sejam no sentido de ferramenta de superação de desigualdades sociais, ou na de formação da “cidadania”, devem ser percebidos em relação à outras esferas sociais que, por conta de sua imensa complexidade e desigualdade, produzem conflito. Perceber a dimensão conflitiva e contraditória da escola, na forma como é representada pelo filme, é de fundamental importância para se repensar o papel dessa instituição. Afinal, a tarefa de construção de uma escola democrática e, acima de tudo, socialmente relevante, demanda uma análise que, antes de tudo, deve se alicerçar em uma postura essencialmente historicizada e crítica.
 
 
ARGÜELLES, Regis. RESENHA - CANTET, Laurent. Entre os Muros da Escola Rio de Janeiro: Revista Eletrônica Boletim do TEMPO, Ano 4, Nº14, Rio, 2009 [ISSN 1981-3384]
Logo financiadores

Edições Anteriores

Vitrine do Tempo Presente

Cine Tempo

Frontpage Slideshow | Copyright © 2006-2011 JoomlaWorks Ltd.