quinta, 24 de julho de 2014 - 16:59h

Resenha: Frida

Resenha de filme
TAYNOR, Julie. Frida. EUA: Miramax International, 2002.
 
por: Priscila Henriques Lima 1

“La tragedia es lo más ridículo que tiene ‘el hombre’ pero estoy segura, de que los
animales, aunque ‘sufren’, no exiben su ‘pena’ en ‘teatros’ abiertos, ni
‘cerrados’ (los ‘hogares’). Y su dolor es más cierto que cualquier
imagen que pueda cada hombre ‘representar’ o sentir como dolorosa.”
(Diário de Frida Kahlo)


   
    O ano de 1910 foi de fundamental importância para a sociedade mexicana. O cenário foi marcado principalmente pelas diferenças sociais, onde poucos eram milionários - proprietários de grandes extensões de terra -, e muitos eram os camponeses que viviam em total subsistência. Diante dessa diferença social gritante, nasce a primeira revolução do mundo moderno, aquela considerada a precursora da revolução russa. Foi Emiliano Zapata e Francisco Villa que fizeram a revolução popular mexicana de fato acontecer; de maneira sangrenta, mas que a longo prazo possibilitou o surgimento da arte como instrumento de resgate do nacionalismo mexicano. Tornava-se possível sonhar com a liberdade.

    Em 1907 nasce Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón - um nome suntuoso, digno de uma personalidade a altura. Devido a sua identificação com a revolução mexicana, dizia a todos que seu nascimento se deu no ano de 1910. Em sua concepção, tanto ela quanto o “Novo México” haviam despertados para o mundo ao mesmo tempo. Dessa maneira torna-se perceptível que ela desejava expressar seu posicionamento nacionalista, bem como procurou inserir-se no momento de glória alcançado pelo povo mexicano através da uma revolução que almejava uma sociedade mais justa e igualitária. O pensamento era que “graças à revolução, o mexicano quer se reconciliar com sua história e com sua origem” 2.
   Filha de judeu húngaro e uma mexicana, descendente de espanhóis e índios, acabou sendo dotada de uma singularidade étnica, e ligada ás raízes mexicanas, sempre lutou contra os movimentos de aculturação que partiam das metrópoles.
    Suas obras se caracterizam principalmente pelo resgate as raízes mexicanas para que fosse possível através da arte criar uma nova identidade para o povo mexicano, bem como nos convida a conhecer o seu mundo, geralmente triste, solitário e doloroso, onde localizamos em muitos dos seus quadros a tentativa de dar sentido aos seus sentimentos.
    O filme Frida, da diretora Julie Taynor, baseou-se na biografia de Hayden Herrera, considerada fidedigna a artista. Os direitos foram obtidos pela produtora Nancy Hardin ainda no ano de lançamento da obra em 1983, entretanto só conseguiu gerar interesse nos estúdios de cinema na década de 90.
    O roteiro enfatiza toda a superação de Frida frente aos problemas de saúde que enfrentou durante a sua vida. A película nos deixa estarrecidos com a força de vontade e a obstinação da mulher, que desde a mais tenra idade descobriu-se deficiente por conta de uma meningite mal curada, o que a deixou manca de uma perna, para alguns poucos anos depois ser vítima de um acidente de ônibus, onde teve sua coluna quebrada em três lugares; a perna direita em onze; a clavícula, a terceira e a quarta costela também sofreram fraturas; seu pé direito foi esmagado e a pélvis quase destruída. Mesmo assim, diante de toda essa dificuldade, ela buscou na pintura uma maneira de voltar a viver e fez da sua deficiência a inspiração de sua arte.
    O filme foca principalmente seu relacionamento com o pintor Diego Rivera, um dos três grandes representantes do movimento muralista mexicano, militante marxista, preocupado com a função social de sua arte, buscando interpretar a história mexicana através da denúncia dos ricos e poderosos, reproduzindo a imagem de opressão e exploração indígena pelo colonizador apoiado pela Igreja Católica. Era princípio do movimento muralista o repudio as telas, e realizavam seus trabalhos em muros e escadarias, onde fosse possível o acesso da sociedade, dando um caráter pedagógico, e indo de encontro á arte produzida na academia, considerada por eles como elitista, pois eram destinadas as paredes dos grandes colecionadores.
    Todo o ambiente no qual se desenvolveu as inspirações de Frida esteve imerso nas preocupações de cunho social, porém sempre se recusou a associar-se a qualquer movimento artístico, até mesmo quando o poeta francês André Breton a classificou como surrealista.
    Apesar de resistir a esses enquadramentos, sempre esteve envolvida com as ações do Partido Comunista, chegando a abrigar em sua casa o líder exilado da revolução soviética Leon Trótski, com quem teve um relacionamento breve.
    Uma das obras mais importantes de Frida Kahlo, o quadro “Las dos Fridas”, de 1939, serve como ponto de partida para a análise do filme de Julie Taymor. Considerado o ponto central de suas obras, o quadro nos mostra dois auto-retratos, onde discute acima de tudo a questão da identidade. No centro da tela temos duas Fridas sentadas e de mãos dadas, onde uma está vestida tipicamente como mexicana, enquanto a outra usa um vestido branco, numa clara alusão a vestimenta européia. Suas mãos estão se tocando, todavia a maior conexão está na artéria que as une, de um lado saindo de um coração inteiro, pertencente a Frida Mexicana, e de outro lado saindo de um coração aos pedaços, da Frida Européia. O conjunto da obra nos mostra as duas sociedades distintas que coexistem no país, onde as raízes mexicanas estão representadas como fonte de vida, enquanto o lado europeu se esvai em sangue.
    Ao dar um enfoque maior as relações amorosas de Frida, a diretora Julie Taymor  pareceu negar o lado militante político da artista, uma atitude corriqueira no cinema americano que, desde a guerra fria procura não associar a imagem de um comunista a um protagonista. A participação de Frida no PCM (Partido Comunista Mexicano) aparece em uma ou outra cena, mas sempre vinculado as praticas de Rivera, como se sua participação fosse meramente coadjuvante ao marido, e mesmo assim retrata as reuniões partidárias como encontros boêmios, dando um caráter de glamour ao movimento político. Frida Kahlo na realidade foi filiada ao PCM por toda a sua vida, sendo inspiração recorrente em suas obras, inclusive tendo deixado incompleto o Retrato de Stalin.
    Em seu diário, ela demonstra preocupação com o enfoque de seu trabalho, quando escreve no ano de 1936 que estaria muito preocupada com suas pinturas, pois acima de tudo sua intenção era transformá-la em algo útil e até aquele momento simplesmente estava retratando a si mesma, um tipo de pintura que não poderia servir ao Partido. “Tenho que lutar com todas as minhas forças para assegurar que a única coisa positiva que a minha saúde me permite fazer beneficie também a revolução, a única razão de viver.” 3
    Suas viagens ao exterior também foram pouco abordadas como fonte de inspiração para a produção de obras que voltavam a temática para o posicionamento mexicano frente ao estrangeiro, como por exemplo a viagem aos EUA e a preocupação da artista com todo o movimento imperialista deste país, bem como os problemas de fronteiras entre os países. Foi nesse sentido que ela produziu as obras “Auto-Retrato na fronteira do México com os Estados Unidos” de 1932 e “O meu vestido está ali pendurado ou Nova York” de 1933. Em ambas é possível perceber a cultura mexicana se contrapondo aos princípios industriais norte-americano, realizando uma crítica ao imperialismo e sua base desenvolvimento x subdesenvolvimento.
    Uma outra cena elaborada de maneira errada por Taylor e historicamente incorreta foi a escolhida para o término do filme: Frida deitada em sua cama sendo levada para sua última exposição no México, o que de acordo com o filme também seria sua última aparição pública. Entretanto a última aparição pública de Frida ocorreu um ano depois, quando saiu ás ruas de cadeira de roda para protestar contra a derrubada, por parte dos Estados Unidos, do governo democraticamente eleito na Guatemala de Jacobo Arbens. Ela morreria 11 dias depois desse acontecimento. Todavia é fato que essa representação não agradaria ao cinema Hollywoodiano, o que deixa claro as limitações políticas que permeiam dentro e fora dos Estados Unidos.
    Mesmo sendo um filme interessante, o roteiro peca ao forçar o conteúdo complexo da vida da pintora em pouco tempo. Ao querer abraçar todos os fatos importantes da vida de Frida, o filme torna-se extremamente narrativo, deixando de lado as complexas questões levantadas pela personagem, dificultando o entendimento das reações de Frida diante da sua vida. Alguns fatos acabam aparecendo, mas sem uma sequência lógica, como se estivessem ali para constar, sendo os eventos organizados em tópicos. Dessa maneira, fica a critério pessoal compreender as atitudes da personagem.
    Um claro exemplo disso é a maneira como se aborda a bissexualidade de Frida, que por não se desenvolver no roteiro, passa uma impressão frívola, como também o seu relacionamento com Trótsky e com a ex-mulher de Diego Rivera.
    O resultado dessas falhas é a o surgimento de Diego Rivera como o personagem mais interessante do filme, mostrando um homem que apesar de seu firme posicionamento esconde um perfil inseguro, por outro lado encontramos em Frida todo o estereótipo de mulher ciumenta, renegando uma força pessoal que é de fato o que a torna tão fascinante.
    Dentro das possibilidades que poderíamos esperar do cinema hollywoodiano, o filme estimula o público á conhecer um pouco mais sobre a história dessa magnífica mulher. Através dele é possível perceber a mensagem que Frida nos deixa: que apesar das dificuldades, a vida deve ser vivida plenamente – com paixão e consciência social.


NOTAS
1. Graduanda em História pela Universidade Católica de Petrópolis.
2. CAMPIN, Hector Aguilar & MEYER, Lorenzo. À sombra da Revolução Mexicana: História Mexicana Contemporânea, 1910-1989. São Paulo: Edusp, 2000, p. 19. 
3. KAHLO, Frida. O diário de Frida Kahlo: uma auto-retrato íntimo. Rio de Janeiro, José Olympio, 1996., p. 53.


BIBLIOGRAFIA:

ADES, Dawn. Arte na América Latina. São Paulo: Cosac & Nayfy Edições, 1997.
CAMPIN, Hector Aguilar & MEYER, Lorenzo. À sombra da Revolução Mexicana: História Mexicana Contemporânea, 1910-1989. São Paulo: Edusp, 2000.
FUENTES, Carlos. O Espelho enterrado. Reflexões sobre a espanha e o Novo Mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
KAHLO, Frida. O diário de Frida Kahlo: uma auto-retrato íntimo. Rio de Janeiro, José Olympio, 1996.


FICHA TÉCNICA:

Nome: Frida
Diretora: Julie Taymor
Elenco: Salma Hayek, Alfred Molina, Geoffrey Rush, Ashley Judd, Antonio Banderas, Edward Norton, Valeria Golino, Mía Maestro, Roger Rees, Patricia Reyes Spíndola, Saffron Burrows, Diego Luna.
Produção: Lindsay Flickinger, Sarah Green, Nancy Hardin, Salma Hayek, Jay Polstein, Roberto Sneider, Lizz Spee
Roteiro: Clancy Sigal, Diane Lake, Gregory Nava, Anna Thomas
Fotografia: Rodrigo Prieto
Trilha Sonora: Elliot Goldenthal
Duração: 118 min.
Ano: 2002
País: EUA / Canadá
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Distribuidora: Não definida
Estúdio: Miramax Films / Trimark Pictures
Classificação: 14 anos
 
 
LIMA, Priscila Henriques. RESENHA - TAYLOR, Julie. Frida. Revista Eletrônica Boletim do TEMPO, Ano 5, Nº14, Rio, 2010 [ISSN 1981-3384]
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