| A encruzilhada cubana no Le Monde Diplomatique |
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A encruzilhada cubana no Le Monde Diplomatique Por: Juliana Sayuri Ogassawara * Coroando os 50 anos da Revolução Cubana, a mídia internacional destrincha a intrincada trilha do que será Cuba sem Fidel. Muito aquém de um brinde ou de uma crítica ao aniversário da Revolução, a discreta, senão escassa, cobertura da imprensa brasileira reduzira a notícia ao pó do passado, desconsiderando o que o legado político cubano represente para o tempo presente e para o futuro.
A alvorada do dia 1º de janeiro de 1959 trazia a notícia de que o ditador Fulgencio Batista fugia de Havana, e assim, os guerrilheiros castristas enfim triunfavam na ilha caribenha. No dia 1º de janeiro de 2009, uma pequena fatia da imprensa mundial retornou às memórias revolucionárias, evidenciando antigas e novas perspectivas sobre os rumos de Cuba sem Fidel, desde sua renúncia em fevereiro de 2008. Para Borges, “A mídia hegemônica realiza o ‘obituário precoce’ do líder revolucionário – num ritual macabro em que reza por sua morte – e especula sobre a regressão capitalista na ilha rebelde. Essa ladainha ideologizada, em que a informação imparcial pouco vale, é antiga. Satélite dos EUA, a mídia mundial sempre apostou no fracasso da Revolução Cubana” (BORGES, 2008). Se no presente a saúde abalada de Fidel Castro atrai os holofotes da mídia nesse sentido, vale dizer que no passado, “A Revolução Cubana foi fartamente noticiada e discutida, criticada pela imprensa nacional, amplamente debatida pelo movimento estudantil; citada, aplaudida e copiada pelos militantes dos movimentos de esquerda e rechaçada pela direita” (WASSERMAN, 2007). Para Emir Sader, há duas interpretações sobre a Revolução. Na primeira delas, a Revolução seria considerada a tomada de poder por Fidel em oposição à ditadura de Batista como “um movimento guerrilheiro que capitalizou o descontentamento do povo contra as condições de miséria, corrupção, falta de liberdade e dependência em relação aos EUA, para instalar um novo governo revolucionário nos primeiros dias de 1959” (SADER, 1985, p. 5). Ou a Revolução seria uma continuidade das “frustradas lutas de independência” iniciadas no século XIX, alavancando “transformações radicais das estruturas econômicas, sociais, políticas e ideológicas que fizeram de Cuba o primeiro país socialista da América Latina e do mundo ocidental” (SADER, 1985, p. 5). Para Sader, esta última seria a visão preponderante. Assim como para Florestan Fernandes, “a essência da revolução cubana não está em ter desatado o nó górdico do neocolonialismo e da dominação imperialista, mas na construção de um caminho socialista para o futuro” (FERNANDES, 2007, p. 89). Fernandes considera que a revolução tinha a finalidade de libertação nacional e democrática das amarras da ditadura, mas que também era: “[...] em um nível mais profundo e por isso menos visível, uma revolução proletária e socialista. Desse ângulo, o “voluntarismo” dos revolucioná-rios – inegável no plano ideológico e do pensamento político – constituía uma resposta às exigencias e às potencialidades da situação histórica” (FERNANDES, 2007, p. 32). Logo, pelas distintas perspectivas que provoca, é possível dizer que a Revolução Cubana continua a atiçar e acalorar relevantes questões, opiniões sonoramente díspares, controvérsias, interpretações e versões. O tema aberto é “talvez o mais controvertido da segunda metade do século XX. As opiniões se dividem, mostrando que se trata de um fenômeno radical” (SADER, 1985, p. 74). Para Prado: “Na América Latina, nos últimos 40 anos, não há figura política mais conhecida que Fidel Castro, nem acontecimento histórico mais controverso que a Revolução Cubana” (PRADO, 2003, p. 11). E: “Finalmente é necessário reiterar que a revolução cubana é um tema aberto, como todo processo histórico novo. Seu destino está aberto para a história, a história real de homens como aqueles que, encarnando a dignidade de todo um povo, começaram a assaltar o céu na manhãzinha de um dia de carnaval, para que o extraordinário se tornasse cotidiano nas terras da América” (SADER, 1985, p. 78). Se na “mídia hegemônica” Fidel e a Cuba revolucionária são severamente criticados, um olhar sobre a mídia alternativa poderia oferecer um foco de luz à imagem cubana tão distorcida na imprensa. Le Monde Diplomatique proporciona esse viés diferenciado, sendo valorizado como “a melhor publicação de política internacional do mundo” (SADER, 2007). Desde sua criação na França de 1954, o Le Monde Diplomatique declaradamente quer se posicionar como uma politizada alternativa editorial, diante da grande mídia mundial, abordando questões geopolíticas, sociais, culturais do mundo sob um “novo olhar”. A gazeta se destaca por sua mobilização e suas agudas críticas às novas implicações sócio-culturais e políticas na realidade imbricada pelo neoliberalismo, sustentando claramente uma posição anti-neoliberal e antiimperialista. A princípio francês, o periódico conta atualmente com 73 edições internacionais, espalhadas por África, Ásia, Américas e Europa, mantendo uma linha editorial crítica, politizada e plural, no intuito de constituir: “[...] finalmente, uma porta aberta ao novo. Novos comportamentos, novas formas de intervenção cultural, novas proposições artísticas. Queremos ser os olhos e os ouvidos deste tempo. E também os seus protagonistas” (ARANTES, 2007, p. 3). Le Monde Diplomatique busca se posicionar como uma mídia articulada com vias alternativas na política e economia. O ativismo na relação com movimentos sociais marca a imprensa alternativa, que visa protagonizar transformações na sociedade mediante a comunicação, pois: “Num mundo em que se proclama a inexistência de alternativas – e se procura, portanto, reduzir dos cidadãos a espectadores da História –, nada mais transformador que valorizar e construir, na prática, o direito à informação, à comunicação, ao exercício de enxergar o mundo e influir em seus destinos” (LE MONDE DIPLOMATIQUE, 2007). O dilema de Cuba em três tempos: passado, presente e futuro A respeito do 50º aniversário da Revolução Cubana, as edições de janeiro de 2009 de Le Monde Diplomatique de Argentina, Chile, México, Uruguai e Venezuela traduziram e publicaram um artigo de Janette Habel, do Instituto de Altos Estudios de América Latina (IHEAL) de Paris. No Brasil, o artigo publicado sobre o tema foi de Tiago Nery, mestre pelo Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro. Além disso, na edição brasileira de agosto de 2008 traz um artigo do sociólogo cubano Aurelio Alonso, da revista Casa de las Américas. As interpretações oscilam entre o passado, o presente e o futuro de Cuba. Enquanto Nery assina um artigo mais narrativo, brevemente recordando episódios de 1959, Habel descortina uma análise marcada por questões, interrogações, incertezas em relação ao destino da ilha sem Fidel. “¿De qué se discute? ¿En qué consisten las diferencias? Militantes, investigadores, intelectuales y algunos círculos estudiantiles están en busca de un socialismo alternativo. […] Hay que cambiar. Pero ¿qué, cuándo y cómo? […]” (HABEL, 2009, p. 4-5). Questões vibrantes, considerando que o artigo não trata apenas da Revolução, mas enfoca a questão da renúncia de Fidel de fevereiro de 2008 por motivos de saúde, passando o poder para seu irmão, Raúl Castro: “El escenario político es inédito”. Sob o título “Cuba busca renovar su modelo”, a autora pontua a necessidade de mudanças políticas e econômicas para o país. “Dilema” é a palavra para caracterizar a encruzilhada vivida por Cuba nas três temporalidades. No passado, o dilema era a transição do capitalismo para o socialismo diante das fragilidades cubanas acirradas pelas pressões econômicas norte-americanas. No presente, é um novo dilema, que repercutirá no futuro. A respeito dessa nova encruzilhada, as primeiras linhas de Habel são aspas de Aurelio Alonso: “Salir del caos sin caer bajo el yugo de la ley de la selva”. Nas palavras de Alonso: “É a política do pluripartidarismo eleitoral associada às pressões do capital, ideologia do individualismo, exaltação da competição e da desigualdade e insensibilização perante a pobreza. Em poucas palavras, a lei da selva” (ALONSO, 2008, p. 16). De acordo com Alonso, a atual transição Fidel-Raúl tem o caráter de um dilema. Para ele, há duas vias: a “duríssima rota” para preservar o socialismo clássico, ou a renúncia à proposta socialista e o início de uma transição inversa, com direção ao capitalismo. “O dilema definia-se, portanto, entre a transição de um socialismo fracassado para um socialismo viável ou para um capitalismo que amavelmente nos era apresentado como realizável, com ‘rosto humano’” (ALONSO, 2008, p. 16). Em Cuba, diz Alonso, prepondera a primeira alternativa, apesar de que: “A outra transição teria sido mais simples, ao colocar tudo nas mãos do mercado. E é também terrível, já que sua lógica não perdoa: consolida desigualdades, aprofunda e aumenta a pobreza, penhora soberanias, compromete futuros. Teríamos perdido meio século de sacrifícios em Cuba” (ALONSO, 2008, p. 16-7). Para Habel, o momento é marcado por “la emergencia de un importante debate sobre el futuro del socialismo, tanto en la oposición como en aquellos que desean su evolución”. O “dilema” busca traduzir a transição para o pós-castrismo em que Cuba se equilibra, como nas palavras de Nery: “equilibrando-se entre o realismo e a utopia”. Nessa transição, a mudança é imperativa: “É óbvio que a realidade presente mostra uma complexa parafernália de necessidades de mudança na transição cubana” (ALONSO, 2008, p. 16-7). E Raúl Castro simboliza a esperança renovada, por admitir a necessidade de mudanças estruturais na ilha (HABEL, 2009, p. 4-5) para conquistar e consolidar um “socialismo alternativo” e “viável”. Enquanto Alonso e Habel admitem a necessidade de mudanças e criticam as debilidades políticas e econômicas castristas, Nery se contenta em mencionar que além dos avanços, Cuba apresente contradições, como o partido único, o monopólio da imprensa estatal e as restrições às liberdades, contudo, evidenciando sua posição: “No entanto, entre as principais fragilidades das críticas endereçadas a Cuba, ressalta-se a ausência de perspectiva histórica, que ignora os contextos e os desafios que influenciaram as escolhas dos dirigentes cubanos, sempre condicionados pela ação dos sucessivos governos norte-americanos” (NERY, 2009). Nery, portanto, apresenta um viés mais favorável à Revolução quase que incondicionalmente, inclusive ao postular no subtítulo de seu artigo: “Revolução Cubana: 50 anos de resistência e dignidade”. Alinhado ao autor nesse ponto, o sociólogo brasileiro Emir Sader diz que: “O argumento utilizado por órgãos de imprensa é de que o preço dessas conquistas inegáveis foi a perda da liberdade e da democracia pelo povo cubano” (SADER, 1985, p. 76), com uma importante ressalva, todavia, questionando os conceitos de democracia e de liberdade. Quanto às diferentes e marcantes visões sobre o tema, vale considerar que: “A importância de Cuba como marco da primeira revolução que se tornou socialista na América Latina, no contexto internacional pós Segunda Guerra Mundial, marcado pelo acirramento da Guerra Fria, suscitou e suscita interpretações diferenciadas e marcadas pela defesa incondicional da Revolução e do castrismo ou de interpretações críticas à Revolução. Entretanto, há uma visão crítica de esquerda que reconhece as conquistas sociais da Revolução e seus esforços para a construção do socialismo, mas assume uma posição crítica em relação à falta das liberdades democráticas (políticas e culturais) em Cuba e à sua extrema dependência do bloco liderado pela ex-União Soviética, durante um longo período” (MISKULIN, 2003, p. 26). Entre esses intelectuais poderiam estar Alonso e Habel, ao oferecer uma análise densa e pluralista sobre a Revolução Cubana, sem pender nem para a crítica sonora nem para o elogio cego. Nery, no entanto, mostra um desequilíbrio no tom de suas considerações, reduzindo sua ótica a uma lógica que deliberadamente desconsidera as críticas mais ferrenhas. De acordo com Samuel Farber, no artigo publicado na edição boliviana do Monde Diplomatique e traduzido para a Folha de S. Paulo: “Para uma grande parte da esquerda latino-americana, o governo cubano tem representado uma força anti-imperialista e um baluarte dos movimentos progressistas. Mas um exame aprofundado da política externa cubana revela que, embora Cuba tenha seguido uma trajetória de oposição ao imperialismo dos EUA, não aconteceu o mesmo com relação à agressão imperial de outros países. De fato, em várias ocasiões Cuba se posicionou do lado dos Estados opressores”, como foi o caso do apoio às invasões soviéticas da Tchecoslováquia em 1968 e do Afeganistão entre as décadas de 1970 e 1980 (FARBER, 2009). Assim como o dilema da transição cubana, os três artigos possuem seus impasses. Janette Habel abre múltiplas questões sobre o destino da política cubana no novo cenário, com um estilo mais inquisitivo, e ao mesmo tempo mais aberto e plural. A autora se dedica mais à reflexão sobre o futuro. Sua análise é marcada pela pluralidade de vozes, contando com citações de fontes como o sociólogo Aurelio Alonso, o economista Pedro Montreal, a socióloga cubana Mayra Espina, o pesquisador Ariel Dacar, o politólogo Juan Valdés Paz, o ex-diplomático Pedro Campos, o diretor da revista Temas Rafael Hernández, a historiadora norte-americana Michelle Chase, o diretor da revista Criterios Desiderio Navarro e o ex-primeiro ministro polaco Tadeusz Mazowiecki. A autora costura as idéias e posições diferentes das fontes, incitando a discussão acerca do tema. Apesar de ser mais narrativo, perpassando por episódios importantes da Revolução, Nery, por sua vez, é autor de um artigo mais passional, mais comprometido com o elogio revolucionário, com a trama de uma Cuba socialista, com o passado. O artigo de Nery também mostra diversidade de vozes, contando com citações do historiador Luis Fernando Ayerbe, do crítico literário Antonio Candido e do antropólogo Darcy Ribeiro – além da voz de Fidel Castro. Alonso se equilibraria entre as duas posições, com um artigo mais crítico, ponderado e sensato, e mais focado nos dramas do presente. Três vozes diferentes trazem à reflexão a pluralidade do Le Monde Diplomatique. Ao proporcionar ao leitor três vieses distintos, e o mais importante, três perspectivas abertas sobre a questão, o Le Monde Diplomatique faz jus a uma das marcas da imprensa alternativa: um espaço para discussões de idéias plurais. * Juliana Sayuri Ogassawara é jornalista e mestranda em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Referências bibliográficas ALONSO, Aurelio. “Sair do caos sem cair na lei da selva”, in: Le Monde Diplomatique. São Paulo: Instituto Pólis, ano 1, n. 12, julho de 2008, p. 16-7. ARANTES, José Tadeu. “Um novo olhar”. In: Le Monde Diplomatique. São Paulo: Instituto Pólis, ano 1, n. 1, agosto de 2007, p. 3. BORGES, Altamiro. “Fidel e o futuro da Revolução Cubana”. In: Revista Fórum, Ed. 60, 14 março de 2008. Disponível online em: <http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/EdicaoNoticiaIntegra.asp?id_artigo=2266> Acesso em 27 de fevereiro de 2009. FARBER, Samuel. “Entre a revolução e os interesses”. In: Folha de S. Paulo, 2 de janeiro de 2009. Disponível online em: <http://1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft0201200916.htm> Acesso em 26 de fevereiro de 2009. FERNANDES, Florestan. Da guerrilha ao socialismo: A Revolução Cubana. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2007. HABEL, Janette. “Cuba busca renovar su modelo”. In: Le Monde Diplomatique. Santiago do Chile: Editorial Aún Creemos en los Sueños, ano 9, n. 93, janeiro e fevereiro de 2009, p. 4-5. _______. “Cuba busca renovar su modelo”. In: Le Monde Diplomatique. Buenos Aires: Capital Intelectual, ano 10, n. 115, janeiro de 2009, p. 4-5. 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WASSERMAN, Claudia. “A recepção da Revolução Cubana no Brasil: a historiografia brasileira”. In: Estúdios Interdisciplinarios de America Latina y el Caribe, Vol. 18-2, 2007. Disponível online em: <http://www1.tau.ac.il/eial/index.php?option=com_content&task=blogsection&id=20&Itemid=158> Acesso em 27 de fevereiro de 2009. OGASSAWARA, Juliana Sayuri. A encruzilhada cubana no Le Monde Diplomatique. Revista Eletrônica Boletim do TEMPO, Ano 4, Nº08, Rio, 2009 [ISSN 1981-3384] |