| Blog do Bull: Cinema |
Olá Amigos !!!Notadamente, o cinema é uma das mais vitoriosas e belas construções da modernidade. Algumas vezes, diria na maioria delas, consegue sagrar mais "histórias" que os próprios historiadores. Desse modo, como uma forma de mediação, despretensiosa, porém, ao mesmo tempo acadêmica, resolvemos criar esse novo espaço para um diálogo, já antigo, entre História e Cinema. Ricardo P. dos Santos, conhecido como Ricardo Bull, carioca de nascimento e de coração, é um historiador apaixonado por cinema. Com mestrado em História Comparada , pela UFRJ, escreve com regularidade sobre o tema. contato: Este endereço de email está protegido de spam bots, necessita ter o Javascript activado para o poder visualizar Em 23 de Agosto de 2010 Filme: Inception (A Origem) – Ação – EUA – 2010 – Duração: 148 Minutos - Direção – Christopher Nolan Ação ou ficção científica? Esta é a primeira pergunta que deve ser respondida quando acabamos de assistir A Origem. Diria que ambos. O diretor Christopher Nolan consegue, com grande qualidade, apresentar um filme de ação com uma boa carga de cientificidade sem perder as boas cenas de perseguição e tiros. Dito de outro modo, ele consegue dar um bom grau de complexidade e inteligência aos seus filmes de ação. Tal fato torna o diretor um diferencial no universo hollywoodiano. ![]() Com algumas passagens pelo universo da mente, 2008 Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight), 2006 - O Grande Truque (The Prestige),2005 - Batman Begins (Batman Begins), 2002 - Insônia (Insomnia), 2000 - Amnésia (Memento), Nolan, desta vez, entra mais fundo na mente humana e despeja uma alta carga de complexidade ao filme. O diretor parece determinado em não facilitar, tampouco simplificar, nos seus filmes. Vilão e mocinho ocupam e agem de forma não linear e simplista, tão comuns em filmes deste formato. Assim sendo, Nolan parece desejar uma maior reflexão nos seus filmes. O tema central do filme passa pela possibilidade de entrar no universo dos sonhos (imaginário) e poder controlar, roubar, modificar e inserir idéias (Inserção seria a tradução literal e mais adequada para o título). A operação é organizada por Cobb (Leonardo Dicaprio), um especialista na arte de dominar sonhos. Entretanto, para a missão especial Cobb tem que reunir um grupo para lhe proporcionar o anteparo necessário para alcançar o sucesso. Para inserirmos uma idéia necessitamos muito mais do que simplesmente informa-la. Este é o grande eixo do filme e da operação que Cobb leva a cabo. Para a existência/sobrevivência das grandes ideologias, ditaduras e, fundamentalmente, para a construção do próprio individuo (penso, logo existo ) devemos compreender que há a necessidade de se interiorizar algo maior do que a simples idéia central. Uma relação intima deve ser construída. Para além de convencer Richard Fischer (Cillian Murphy) a desmembrar a mega empresa herdada de seu pai, Cobb busca a sua felicidade. Para isso, precisa resolver as suas próprias questões pessoais (com a morte de sua mulher, Mal (Marion Cotillard), Cobb não consegue ser feliz. A culpa é o sentimento que o corrói). Neste caso, o real e o imaginário dialogam intensamente. Para aqueles que costumam debater o filme na saída de cada sessão, diria que com calma e um pouco de atenção fica fácil desvelar o universo do filme. Felicidade, culpa e construção do eu são alguns dos pontos válidos para a reflexão. Para aqueles que buscaram ação (tiros/perseguições/efeitos especiais) encontraram também um grande filme. Vale destacar que Leonardo Dicaprio, mais uma vez, consegue mostrar a sua maturidade como ator. Apesar, neste caso específico, ter ficado bem próximo de seu personagem Teddy Daniels, em ILHA DO MEDO, Dicaprio mantém a alta qualidade. Enfim, temos que comemorar o bom exercício que o filme proporciona. Para alguns, não entender o filme é o primeiro passo para não gostar. Diria, neste sentido, que esta inquietação deveria ser o primeiro passo para a necessidade de pensarmos um pouco mais sobre o cinema. É ótimo encontramos filmes que não trazem tudo mastigadinho, tudo no lugar..... desarrumar as coisas nos faz pensar. Este é, sem dúvida, um bom exercício. Encontro vocês no cinema... Grande Abraço, Ricardo Bull Em 09 de Agosto de 2010 Filme: Death Proof (À prova de Morte) – Terror – EUA – 2007 – Duração: 113 Minutos - Direção – Quentin Tarantino Um filme como Á Prova de Morte deixa claro o porquê de Tarantino ser considerado um dos maiores diretores da atualidade. Dificilmente algum outro diretor conseguiria colocar um filme como esse em “grande circuito” (assisti ao filme na cidade de Porto Alegre, no cinema do Shopping Moinho de Ventos). Definido como terror, o filme é uma grande saudação aos filmes subterrâneos e, por isso, diverge completamente das estruturas cinematográficas atuais exibidas nos grandes cinemas. ![]() Apesar de possuir bons ingredientes para um filme contemporâneo, no sentido de uma estrutura de maior aceitabilidade, (mulheres bonitas, velocidade, violência e apelo sexual), o diretor opta por manter a tradição e continua investindo no “modo Tarantino de fazer cinema”. Não poderia ser diferente. Com falhas na gravação, “defeitos” na cor e, sobretudo, marcado pelos sinais do cinema crime, característica marcante nos filmes do diretor, o novo trabalho pode vir a decepcionar aqueles que brindaram o seu retorno com Bastados Inglórios ( 2009). Mas, para os mais atentos, o filme traz todos os sinais de Tarantino, notadamente o sua acidez, irreverência e audácia. ![]() À Prova de Morte conta a história de um ex-dublê, Stuntman Mike (Kurt Russell), que equipa seu carro tornando-o, literalmente, à prova de morte. Bem equipado, Mike passa a percorrer estradas e bares em busca de mulheres para suprir sua necessidade de sangue. Mais uma vez Tarantino traz a mulher para o centro da sua trama. Diferentemente do papel de vitima, ela surge como alguém que também pode perseguir e matar (ao estilo KILL Bill). Neste sentido, vale destacar que o Próprio diretor, em entrevista, assume o seu feminismo dizendo confiar bem mais nas mulheres. Num momento onde tudo parece ser a mesma coisa, Tarantino nos brinda com o seu estilo corajoso e particular de fazer cinema. Os filmes “B” dos anos 70 deve ser o grande referencial para a inteligibilidade do seu novo filme. Vale a pena conferir. Para os mais jovens o filme pode ser de melhor aceitabilidade. Afinal, mulher bonita, carros em alta velocidade e muito sangue ainda são as marcas de um cinema fácil de consumir. Tarantino só torna isso tudo mais interessante. Encontro vocês no cinema... Grande Abraço, Ricardo Bull Em 21 de Julho de 2010 Filme: Desert Flower (Flor do Deserto) – Drama – Áustria/Alemanha/Reino Unido – 2009 – Duração: 124 Minutos - Direção – Sherry Horman Flor do Deserto é um filme que, para além do projeto cinematográfico, nos da à possibilidade de debater um tema extremamente doloroso, mas significativo, para os nossos dias: a relação entre a tradição e o atroz. Baseado no livro homônimo, o filme nos apresenta a autobiografia da modelo somali Waris Dirie (vivida por Liya Kebede), circuncidada aos cinco anos e vendida para um casamento arranjado aos 13 anos de idade. ![]() O tema espinhoso tratado no filme, a mutilação e a circuncisão feminina, se aproxima muito do drama vivido por Claireece "Preciosa" Jones, em Precious – 2009, pobre, negra e violentada pelo pai e pela mãe. O grande problema de filmes ancorados nestes temas, marcados, sobretudo pela dor, é que em grande parte acabam sendo retratados sem o peso e o engajamento devido no cinema. Nas duas películas que apresentamos o que parece importar é a execução de uma obra fácil e não, efetivamente, a produção de um bom filme, engajado o suficiente no tratar das atrocidades vivenciadas pelas mulheres (crianças). Em nome da tradição e da invisibilidade que este grupo, assim como outros, experimenta ao longo de sua trajetória histórica seria conveniente um peso maior ao tratar do tema. O filme parece, em alguns momentos, tratar de um conto de fadas aos moldes de Hollywood. Tudo parece ser resolvido com um toque de mágica. Somente na segunda metade e, fundamentalmente, nas cenas em que retrata a infância da modelo o filme consegue intervir diretamente na questão central. Tradição e atrocidades. ![]() A atriz e também modelo Liya Kebede tem uma atuação bem adequada ao filme proposto. Ela consegue “viver” Waris Dirie com segurança e brilho. Ainda que o próprio filme tenha lhe proporcionado poucas oportunidades de explorar melhor seu lado atriz, ela consegue dar conta do recado. Enfim, Até que ponto a tradição pode justificar uma atrocidade? Até que ponto devemos aceitar, com a complacência dos que parecem não ver, o martírio de inocentes crianças? Compreendo que nada, nem em nome de Deus, podemos promover a dor. O filme, apesar dos clichês das falta de densidade, é um grande programa. Encontro vocês no cinema... Grande Abraço, Ricardo Bull Em 15 de Junho de 2010 Filme: The Ghost Writer (O Escritor Fantasma) – Suspense – França/Alemanha/Reino Unido – 2010 – Duração: 128 Minutos - Direção – Roman Polanski ![]() Roman Polanski retorna aos cinemas com um grande filme de suspense. Em O Escritor Fantasma o diretor mostra, apesar dos problemas com a justiça, que o seu potencial cinematográfico não sofreu abalos. Depois do grande sucesso com O Pianista (2002), com o qual ganhou o Oscar de melhor de diretor, o polêmico cineasta retorna fazendo claras referências ao cinema noir e aos suspenses psicológicos. Na era do 3D, devemos brindar o “velho” modo de fazer cinema. Com uma fotografia marcada pelo acinzentado e pelas sombras, o ambiente criado no filme se constitui como fundamental para a trama. A cor se associa ao caráter implícito dos seus personagens e, ao final, podemos comemorar por assistir a um bom filme de suspense. Nada é explicito tudo deve ser desvelado. Assim como num labirinto, a cada passo, a cada curva, o suspense está à espreita. Algumas cenas chamam a atenção pela proximidade com outro sucesso do cinema, A ilha do medo (Martin Escorsese – 2010). Notem, dentre outras, a chegada do escritor por navio a ilha do estado de Maine, nos Estados Unidos, onde o ministro vive uma espécie de exílio. No filme Ewan McGregor vive o escritor fantasma. Contratado para terminar a biografia de um importante político, o primeiro-ministro britânico Adam Lang (Pierce Brosnan), o escritor acaba se deparando e, pricipalmente, se inserindo num cenário complexo e perigoso, típico da política e teoricamente distante do universo dos escritores em geral. Vida de risco essa de ghost writter. Ao assumir o lugar do antecessor, morto em condições “desconhecidas”, o escritor passa a viver o drama de ter que escrever a biografia de um político, extremamente obscuro, acusado de graves crimes. De um simples ghost writter a uma peça do jogo da política internacional. Nesse ambiente o filme desenvolve um suspense de grande vigor. Enfim, o filme, para além do potencial cinematográfico, aponta para um tema interessante do ponto de vista da produção de uma obra, naquilo que poucos conseguem ver ou problematizar. Qual o lugar do escritor de uma biografia como essa (ou de qualquer outro escrito/texto)? Cúmplice ou mero construtor de texto. Somos parte daquilo que produzimos? Quantas vezes procuramos saber sobre aqueles que escrevem os textos que lemos? Quando escolhemos o que deve entrar e o que deve ficar de fora de nossos textos. Simples escolhas ou direcionamentos tendenciosos? Diante destas simples questões, apontamos para o lugar da fala e da escrita como peças importantes para a compreensão de um resultado final, seja ele um texto, um filme ou qualquer objeto artístico criado. No caso de Polanski isso é tão revelador como no filme. Diria, por fim, que é revelador como em qualquer filme. Trailer legendado Encontro vocês no cinema... Grande Abraço, Ricardo Bull Em 20 de Maio de 2010 Olá amigos, Antes de começar quero me desculpar pela grande ausência. Fiz uma cirurgia e fique afastado das grandes telas por um bom tempo. Mas, enfim, estou de volta com entusiasmo e com energia para recuperar o tempo perdido. Filme: Iron Man 2 (Homem de Ferro 2) – Aventura – EUA – 2010 – Duração: 117 Minutos - Direção – Jon Favreau ![]() Devo confessar, inicialmente, que não assisti ao primeiro filme da seqüência. Talvez, a época, um pouco de preconceito, ou mesmo, dentre as opções, preferi outros temas. Mas, enfim, passado todo esse tempo resolvi investir em uma possibilidade de ter algo interessante neste tipo de filme. Ao final, Não houve arrependimento, mas também nada de tão espetacular. Já algum tempo, um grande amigo publicou um artigo intitulado Guerra Obscena (segue link abaixo). Nele, debatia a guerra, o governo Bush( filho) e, ao final, o “sistema de combate do futuro” dos Estados Unidos. Por tratar da construção de soldados-robôs, essa última parte me veio à cabeça assim que decidi escrever sobre esse filme. O projeto americano propõe criar uma versão, sem a presença de humanos, de homens de ferro. Ou seja, suas guerras, independente dos seus desafios, conseguiria diminuir (quem sabe zerar) as baixas de seus soldados e, fundamentalmente, atuaria diretamente em um de seus maiores dramas, a opinião pública (sem mortes, sem opositores). Apenas máquinas ficariam encarregadas das missões mais difíceis, preservando assim a vida de milhares de soldados americanos (a morte do “inimigo”, pouco importa – bem a cara do Governo Bush pai e filho). Bem, vamos ao filme. Para um filme de aventura Homem de Ferro 2 tem todos os ingredientes para fazer muito sucesso. Roteiro simples, boas tomadas de ação e, principalmente, boas atuações. Tony Stark (Robert Downey Jr.) encarna o super-herói de maneira exemplar para o cinema de grande público. Ou seja, vivendo um fanfarrão milionário que possui um drama pessoal de saúde, ele consegue, diante de todos os problemas, não perde o humor e o tino para as mulheres. Enfim, um personagem de fácil aceitação. Vale destacar, é claro, a grande atuação do ator. É interessante pensar nos problemas que o personagem central trava com o governo americano. Detentor de uma tecnologia impar para as forças armadas e, disposto a ser o responsável pela proteção do mundo, o Homem de Ferro, metaforicamente uma versão humana do Estado americano, assume o lugar de xerife do planeta (papel desenvolvido pelo governo americano - não sei que os deu esse poder!!!). No primeiro, o filme mostra claramente a complexidade e os problemas em ter a iniciativa privada detentora de tal tecnologia. O segundo, esse um pouco mais interessante, faz emergir a fragilidade do governo americano em prover a sua própria segurança. Nas “mãos” do grande Lob armamentistas, fica difícil, parar com tantas guerras. Esses são dois pontos que merecem uma boa reflexão. Como “todo” filme de aventura, uma seqüência chama a atenção e consegue colocar o filme no seu devido lugar. Depois das conhecidas explosões, perseguições e tudo mais que os efeitos especiais podem proporcionar, surge uma Scarlett Johansson (Natasha Romanoff / Viúva Negra) detonando todos que aparecem pela frente. Uma seqüência que deixa o filme bem próximo de besteirol americano e coloca Johansson entre os maiores lutadores de todos os tempos. Rs! Não posso esquecer do ex-galã Mickey Rourke, agora entre os vilões mais adorados do cinema. Sua nova fisionomia ajuda bastante. Com a sua boa atuação vai conseguindo firmar seu retorno ao cinema americano. Depois do grande sucesso com O Lutador (2008), Rourke vai conseguindo mais espaço no novo (velho) cinema americano. Enfim, dizem que podemos tirar água de pedra. Neste caso, sem um processo de mediação mais apurado, tenho certeza que ficaremos nas glórias dos efeitos especiais e na beleza estética das imagens. Ou seja, nada além de um de um novo filme de aventura americano. Entretanto, com um pouco de cuidado, podemos ver pingar algo interessante, rs Artigo (http://www.tempopresente.org/index.php?option=com_content&task=view&id=46&Itemid=117) Trailer Oficial Encontro vocês no cinema... Grande Abraço, Ricardo Bull Em 20 de Abril de 2010Olá amigos, Filme: Date Night (Uma Noite Fora de Série) – Comédia – EUA – 2010 – Duração: 88 Minutos - Direção – Shawn Levy Depois de alguns filmes “cabeças” (rs) investi numa comédia café com leite para este nosso novo encontro. Uma Noite Fora de Série cumpre bem esse papel. Entretanto, para além das boas risadas, geradas exclusivamente pelo talento dos atores, o filme não tem nenhuma outra grande evidência. Shawn Levy é um diretor sem grande expressão. Depois dos questionáveis Uma Noite no Museu 1 e 2 (dentre outros com pouca qualidade fílmica), o Diretor parece não ter aprendido e continua insistindo em trabalhos com o mesmo perfil. Ou seja, roteiros Fracos, direção questionável e, notadamente, viver ancorados em bons atores. Enfim, o que vem salvando, de alguma forma os filmes, são os atores. As atuações de Steve Carell e Tina Fey valem a ida ao cinema. Vivendo o casal Phil e Claire Foster, Steve e Tine mostram que são mesmo afiados para a comédia. Destaque em seriados americanos, bem como em outros conhecidos filmes, no caso Steve (dentre outros, Pequena Miss Shinshine e o Virgem de 40 anos), os atores mostram sintonia, cumplicidade e, sobretudo, competência para levar um filme, sem nada de novo, a se tornar algo interessante. Phil e Claire Foster formam um casal de classe média americana que caiu na rotina do casamento. Acostumados a viver sem grandes emoções (além da forma delicada de serem acordados pelo pequeno filho) o casal arrisca algo diferente (um jantar num badalado restaurante de Manhattan) e acabam se deparando com a maior emoção de suas vidas. Esse é o cenário, nada novo, no qual o filme se desenvolve. Encerrada as risadas, o filme investe em perseguições de carro, trama policial e, numa deslocada, parada romântica. Desse modo, a partir deste mix de informações, todas mal roteirizadas, o filme perde na sua construção geral. Enfim, pode parecer contraditório, mas não é. Vale a pena assistir o filme. Os atores dão um show. Como não estamos falando de filme “cabeça” (rs), nada de preocupações entre epistemologia e o hermético, podemos ficar rir e sair sem a preocupação de ter, ou não, entendido a moral da história. Apenas, devemos atentar para os cuidados em reclamar da rotina....rs !!! Encontro vocês no cinema... Grande Abraço, Ricardo Bull Em 05 de Abril de 2010 Olá amigos, Filme: Shutter Island (A Ilha do Medo) - Suspense– EUA – 2010 – Duração: 148 Minutos - Direção – Martin Escorsese Machado de Assis disse que: “a loucura é uma ilha perdida no oceano da razão”. Escorsese, possivelmente não conhecedor do nosso grande escritor, produziu um filme que simboliza de modo impecável essa afirmação. A ilha do medo é um filme que consegue fazer com que o expectador não tire os olhos da tela e, acima de tudo, saia do cinema com uma inquietação sobre o que é a loucura e, ao fim e ao cabo, sobre um dos maiores temas da condição humana, a culpa. Reconhecido pelos filmes de gangster e policiais, Escorsese entra com inteligência no universo da loucura. ![]() Com uma fotografia sombria (linda e adequada ao tema), acompanhado por uma trilha sonora tensa (bem próximo do universo de Alfred Hitchcock), o filme desde o inicio nos remete ao universo dos grandes suspenses do cinema. Notadamente, também, as referências históricas e cinematográficas não são poucas (Os corruptos, 1953 – Psicose, 1960 – Holocausto, Campo de concentração, 2 Guerra Mundial), comuns no filme do diretor. Estrelado por Leonardo Dicaprio, um queridinho do Escorsese (já no seu quarto filme com o diretor), a trama se desenvolve com a ida do policial federal, Teddy Daniels (Dicaprio), ao hospital psiquiátrico (literalmente uma ilha que dá medo) para investigar o sumiço de um dos internos, na verdade uma interna, Rachel Solando (Emily Mortimer). Para além da sua missão profissional, uma questão pessoal se infiltra no seu desejo de investigar, encontrar o “responsável” pela morte da sua mulher, Dolores Chanal (Michelle Williiams). Acompanhado do seu parceiro policial (ou psiquiatra), Chuck Aule (Mark Ruffalo – em boa atuação) a investigação sofre inúmeros reveses ao longo da trama. Neste caso, podemos dizer que uma característica marcante de Escorsese, que é mantida com grande vigor no filme, é o grande número de mutações pelas quais seus filmes e personagens passam no decorrer da trama (nada é tão óbvio e linear). Nada fica no lugar no decorrer do filme. 1954, o ano em que se passa o suspense também é ponto chave para a compreensão do filme. Herdeiros ou personagens da destruição da Europa, da Bomba atômica, do Holocausto, do genocídio e, fundamentalmente, do sentimento de culpa pela maior destruição humana do século, os anos 50 foram marcados pela reflexão acerca da culpa pela destruição. A experiência de viver o sentimento de culpa é devastadora das condições humanas. Neste sentido, o holocausto está presente na A Ilha do Medo e, pricipalmente, em Teddy Daniels. As imagens dos campos de concentração e dos “incontáveis” corpos, mortos ou semi-vivos, de judeus nos leva ao sentimento de culpa por aquele desastre. Neste aspecto, o mesmo medo e o mal estar de conviver com a culpa, possivelmente, fizeram com que Danniels preferisse ir para o farol (lugar onde o doente passaria por uma intervenção definitiva na sua condição psíquica) a ser tornar “livre”. Conviver, consciente, com a dor de ter perdido seus filhos e a culpa por ter matado a sua mulher, sem dúvida, era demais para ele. A liberdade seria um martírio e a “morte” um alívio diante desta possibilidade. Enfim, Teddy Daniels vive uma espécie de mito da caverna (Platão). Entre a obscura e confortável loucura e o brilho aterrorizante da luz (verdade). Somente um veterano como Martin Escorsese, mais uma vez, poderia fugir, com tanta classe, do lugar comum dos filmes deste gênero e nos trazer um filme com tanta profundidade. Vale destacar também a maturidade da interpretação de Leonardo Dicaprio. A cada filme vem se destacando como grande e versátil ator. Encontro vocês no cinema.... Grande Abraço, Ricardo Bull Em 18 de Março de 2010 Olá amigos, Filme/Documentário: Pachamama – Brasil – 2008 – Duração: 105 Minutos - Direção Eryk Rocha - ![]() Literalmente com o pé na estrada, Pachamama (título que significa para os indígenas andinos “mãe-terra” e designa a deusa agrária dos camponeses) é um documentário que tem muito a dizer. Uma produção que privilegia a fala do povo, notadamente excluído do processo político durante sua longa história, traz elucidações que somente uma produção que se deslocasse das grandes instituições conseguiria trazer. A viagem ao Peru e a Bolívia, Partindo da região norte brasileira, promove um grande painel dos excluídos na América. O documentário, literalmente, é construído na estrada, como verdadeiros andarilhos, com a diferença de estarem sobre jipes. A equipe, formada pelo cineasta, por engenheiros (mecânicos) e historiadores (estes, professores e pesquisadores do Laboratório de Estudos do TEMPO presente - UFRJ), percorre os três países desvelando um panorama complexo e muito rico de um povo em busca da recuperação da sua identidade e, fundamentalmente, da sua terra. Pachamama (mãe-terra) revela o grito político daqueles que sempre foram os excluídos do processo. Mostra, fundamentalmente, a turbulência político-social da contemporaneidade e os resultados práticos e de discurso que emergiram durante o processo (ainda sem conclusão). Alguns aspectos merecem destaque e grande atenção. Primeiro, ressaltaria a riqueza das entrevistas, fascinantes e muito bem dirigidas. Segundo, destacaria a dinâmica, participação e politização dos povos indígenas. Por fim, diria que a simplicidade dos povos e dos lugares percorridos, apesar do método “rústico” das filmagens, acaba fornecendo um ótimo material para estético para o documentário. Apesar dessa bela proposta e boas ações, o filme apresenta alguns erros capitais para um cinema “histórico”. Isto porque, no sentido de ser objeto de um mesmo tempo histórico, mas com recortes espaciais diferentes, ou seja, três países, a edição parece não se importar em detalhar/especificar as falas e lugares que apresenta. Tal fato, caro ao trabalho dos historiadores, cria uma grande confusão de lugares e, fundamentalmente, “personagens”. Algumas vezes imagens completamente deslocadas do discurso e com pouca representatividade são postas, me parece, com a certeza do nosso conhecimento prévio. Talvez o caráter desbravador da equipe, afinal uma produção que, ao fim e ao cabo, foi descobrindo pela estrada o seu material, tenha sido levado para a ilha de edição. Um erro que, a meu ver, fez o filme perder um pouco do brilhante material que conquistou. O amor pela terra, visto em algumas entrevistas com um valor superior a Deus, associado à importância das identidades locais, poderia ter sido mais bem estruturado. Enfim, um trabalho fascinante que merecia ser lapidado. É isso aí, encontro vocês na próxima sessão. Grande Abraço, Ricardo Bull 05 de Março de 2010 Olá... Como havia dito, na sessão anterior, continuarei falando sobre os filmes concorrentes ao Oscar 2010. Entretanto, como faltam apenas dois dias para o evento, e somente hoje consegui assistir a todos os principais filmes, resolvi fazer um grande balanço sobre os concorrentes e os prováveis ganhadores. O aumento do número de filmes e, fundamentalmente, a grande demora para entrada em cartaz, dificultou o meu trabalho. Apesar disso, consegui assistir aos principais concorrentes. Vamos lá.... Melhor Filme Dez produções estão concorrendo ao Oscar de melhor filme do ano. Como já evidente, pelos grandes rumores midiáticos, Avatar e Guerra ao Terror são os grandes favoritos. Entre os dois, fico com Guerra ao Terror. Na verdade, se confirmada a sua vitória, o prêmio realmente estará com o melhor filme entre os concorrentes. Arrisco a dizer que, se não fosse o grande investimento e a grande popularidade do filme, Avatar talvez não estivesse tão cotado ao prêmio. Não, por não merecer. Mas, sobretudo, por não trazer nada de novo em sua estrutura (para além dos grandes inovadores efeitos gráficos). Vale ressaltar que um ponto aproxima as duas produções. A relevância contemporânea das temáticas apresentadas nos filmes, a questão ambiental e a Guerra do Iraque, estão latentes no cenário mundial. Entretanto, Guerra ao Terror foi bem melhor apresentado. A milionária produção de James Cameron deve perder para um filme com maior densidade e, principalmente, com maior e melhor desenvolvimento. O problema, neste sentido, é o peso que Avatar conquistou ao se consagrar a maior bilheteria de todos os tempos (o que já se tornou uma rotina na carreira de Cameron – Titanic – 1997). Tal fato pode alterar o resultado. Guerra ao Terror é um filme eletrizante. Do começo ao fim a adrenalina corre solta. O Ambiente da Guerra do Iraque foi muito bem retratado no filme. Kathryn Bigelow (ex-mulher de Cameron) conseguiu apresentar com muito realismo o cenário enfrentado pelos soldados no conflito. Apesar dos dois problemas vividos pela equipe do filme (os e-mails pedindo votos de um dos produtores do filme, este banido da festa do Oscar, e o aparecimento de militar americano dizendo que o filme foi feito a partir da suas história) não acredito que o resultado seja mudado. Diante do cenário que foi criado, apenas dois filmes circulando entre os grandes favoritos, outras produções parecem que não receberam o destaque que mereciam. Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino (este até que chegou a ser um pouco badalado, sobretudo pelo diretor), e Distrito 9, de Neill Blomkamp, são grandes filmes que podem estar correndo por fora na disputa. E, quem sabe, surpreender no final do resultado. Educação, de Lone Scherfig, e Preciosa – Uma história de Esperança, de Lee Daniels, apesar de bons filmes e com ótimas interpretações (algumas merecedoras do prêmio), não conseguem assustar os grandes favoritos. Nos dois casos, algumas questões emperram o filme. Podem ganhar melhor o prêmio de melhor roteiro adaptado, mas não o de mellhor filme. Neste caso, seria injusto. Sinceramente, não sei por que UP – Altas Aventuras está concorrendo à melhor filme. Acharia justo o prêmio de melhor animação. Entretanto, compreendo ser um exagero coloca-lo entre os melhores filmes. Enfim, o Oscar de melhor deve ficar mesmo com Guerra ao Terror. Melhor Filme Estrangeiro Nesta disputa fico com poucas alternativas. Na verdade, somente assisti a dois dos concorrentes. A fita Branca, Michael Haneke (Alemanha), e O segredo dos seus olhos, de Juan Jose Campanella (Argentina). Apesar do grande destaque do filme alemão, acredito que a sua supremacia não seja tão justificada. O filme argentino é também um primor. Talvez, neste caso, a densidade do filme de Haneke o faça ser o grande vencedor do prêmio. Mas, diria que, los ermanos estão muito bem representados na disputa. Diria até que a chances não são poucas. O filme argentino tem um frescor delicioso. Imperdível. Melhor Direção Dificilmente o filme vencedor não levará também o prêmio de melhor direção. No entanto, quando temos Tarantino concorrendo, dificulta a escolha. Particularmente, torço pela produção do americano. Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante Apesar da ótima atuação de Gabourey Sidibe, em preciosa, acredito que a jovem deverá aguardar um pouco mais pelo prêmio. Acredito que Meryl Streep e Sandra Bullock são as favoritas. Bullock, apesar da pouca expressão no cinema, ou seja, poucos trabalhos de peso (difícil até pra achar) e sem grandes interpretações, deve ficar com o prêmio. Neste, parece, a atriz conseguiu um bom resultado. Como Atriz coadjuvante, aposto todas as minhas fichas em Mo’Nique, de Preciosa. Esta foi espetacular na sua interpretação. Densa, realista e marcante. Merece o Oscar. Caros amigos, como não consegui fechar todos os filmes, preferi fazer as minhas considerações sobre aqueles itens em que estava mais convicto. Considero que o aumento de número de filmes, concorrendo ao maior prêmio, tenha sido muito mais uma questão de mercado do que qualidade de tantas produções. De qualquer forma, vale pelo prazer de assistir a um número maior de produções. Grande abraço para todos, Vejo vocês na próxima sessão. Ricardo Bull – de olho na tela Em 15 de Fevereiro de 2010 Olá amigos, Na nossa crítica de hoje, e nos próximos encontros, continuaremos debatendo os filmes que concorrerão ao OSCAR 2010. Filme: Preciosa: Uma História de Esperança (Precious: Based on the Novel Push by Sapphire) – Drama - Tempo de Duração: 110 minutos (EUA - 2009) Direção: Lee Daniels Preciosa é um filme que reúne muitos “ingredientes” bons. Mas, por alguns momentos, a “massa” desanda. Lee Daniels no seu segundo filme como diretor (o primeiro foi shadowboxer – 2005 – Matador de aluguel) consegue uma boa história dramática pra contar. Entretanto, baseado no livro Push, o filme acaba se tornado uma espécie de dramalhão gigantesco. ![]() A história contada é a de uma jovem negra, obesa, pobre e que sofre inúmeras agressões (sexuais, psicológicas, dentre outras) durante a sua juventude. Ou seja, um bom material para um drama aos moldes dos programas de televisão sensacionalistas. Aqueles que adoram apresentar os mais escabrosos casos do “nosso” cotidiano. Desse modo, fica fácil entender porque a multifacetada Oprah Winfrey resolver produzir este filme. Afinal, ela conta histórias assim “todos os dias” em seu programa. Vale lembrar a participação de Oprah, como atriz, em A Cor Púrpura, em 1985. Claireece "Preciosa" Jones (Gabourey Sidibe) é a protagonista da história. Violentada sexualmente pelo pai (Rodney Jackson) e abusada de diversas formas pela mãe (Mo'Nique), ela cresce sem conhecer nenhum tipo de amor. A ausência é completa. Mãe de uma filha portadora de síndrome de Down, duramente apelidada de mongo, e grávida de outro, nos dois casos frutos do estupro paterno, a jovem sequer consegue expressar seu amor pelos filhos. A história da jovem é realmente muito dura. Tudo é muito ruim até que Claireece é encaminhada para uma escola alternativa, onde consegue dar os primeiros passos para sua liberdade (física e psicológica). Como drama cinematográfico funciona muito bem, como filme tem pouco a dizer. As cenas em que Preciosa sonha com o príncipe encantado e com o sucesso como cantora/atriz, diante de toda a carga dramática do filme, aparecem meio deslocadas e algumas vezes soam inverossímeis. Neste sentido, o destaque fica para o realismo ácido associado à voracidade de algumas cenas. Por vários momentos a insensibilidade é sentida fora da tela. Enfim, um filme com grandes atuações. Em especial as indicadas ao Oscar, a jovem Gabourey Sidibe e a veterana Mo’nique, melhor atriz e melhor atriz coadjuvante respectivamente, fazem um trabalho espetacular. Mariah Carey (Sra. Weiss), ainda com grande fôlego e ótimas apresentações nos palcos (impressões que recebi de quem assistiu ao seu último show em Boston (EUA), e eu acredito fielmente), tem uma participação tímida, porém de boa qualidade. O filme não é, e nem poderia ser um, um favorito ao Oscar. Entretanto, vale a pena conferir. É isso aí, encontro vocês na próxima sessão. Grande Abraço, Ricardo Bull Ps.1: A revista Vanity fair deste mês destaca jovens atrizes que representariam a nova geração de Hollywood. Entretanto, deixou fora da capa à negra e obesa Gabourey Sidibe (a capa ratifica a ditadura dos novos tempos – brancas e magras formam a capa), o grande destaque do filme apresentado. Racismo, preconceito, opção...não sei...mas, sem dúvida, algo lamentável. A atriz merece todo destaque. Sua atuação no filme é primorosa. Sua resposta sobre o acontecido demonstra sua maturidade e, fundamentalmente, sua clareza sobre a vida. Para quem quiser ler: http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2010/02/17/atriz-de-preciosa-comenta-sobre-revista-que-deixou-de-fora-de-capa-c om-jovens-rostos-de-hollywood-915877859.asp Ps. 2: Vale a pena conferir também, sem maiores pretensões: Vício Frenético - (Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans)de Werner Herzog. Com Nicolas Cage, Eva Mendes, Val Kilmer, Michael Shannon.121min - 18 anosPolicial é extremamente eficiente em apreender drogas, mas não consegue controlar a sua vontade de consumir uma parte das mercadorias. O Fim da Escuridão - titulo original: (Edge of Darkness)lançamento: 2010 (Reino Unido) (EUA) direção: Martin Campbell - Atores: Mel Gibson , Danny Huston , Ray Winstone , Caterina Scorsone , Shawn Roberts Em 01 Fevereiro de 2010 Olá amigos, Esta semana resolvi antecipar o debate. O filme escolhido, Invictus, nos oferece uma boa oportunidade para conhecermos um mais sobre política, esporte e, fundamentalmente, estratégia. Filme: Invictus – Drama - Tempo de Duração: 134 minutos (EUA - 2009) Direção: Clint Eastwood Assim como Lula, O Filho do Brasil (dirigido Fabio Barreto, 2009), Invictus é um filme sobre um grande personagem da política mundial (guardada suas proporções e tempo histórico). Esta, porém, não é a única coincidência das películas. O time do filme também é determinante e muito significativo para a compreensão das obras cinematográficas. Em ambos os casos as estréias foram feitas em momentos cruciais para as nações (eleição para presidente e copa do mundo) e, em particular, para as estruturas (Estado Nação) que servem como pano de fundo aos filmes. Ou seja, a confirmação/consolidação da imagem, construída ao longo da história deveria, agora, receber a chancela do cinema. Ainda que no filme de Fabio Barreto o caráter “propagandístico” não tenha sido declarado, é evidente nos nossos dias a importância (real ou imaginária) que um bom filme pode assumir dentro de uma inteligente estrutura de marketing. No caso de Invictus, não somente, a propaganda é evidente como também há uma espécie de necessidade do fazer (ainda que trate especificamente de Nelson Mandela, o filme vem num momento em que o país tem a responsabilidade de ser anfitrião de uma copa do mundo de futebol – O filme acaba funcionando como uma prévia do que acontecerá em poucos meses. Já fizemos uma vez, faremos novamente. Preservada as suas proporções, é claro...) Neste sentido, não fica difícil entender o porquê dos filmes terem apostados em estruturas de fácil compreensão, uma boa carga dramática e, fundamentalmente, em atores com prestígio para as interpretações principais (Morgan Freeman e Glória Pires). No caso do ator que interpretaria Mandela, vale ressaltar que Morgan Freeman foi o responsável por apresentar o roteiro a Eastwood, disse Mandela, não poderia ser outra pessoa senão ele. Chega de comparações, vamos ao filme. Especificamente sobre Invictus temos alguns pontos interessantes. O primeiro deles é a leitura sobre a importância de um esporte para a Nação. Tanto para segregar, quanto para unir, o potencial simbólico e real de uma prática esportiva pode, em larga escala, gerar mudanças sociais significativas. Facilmente este debate pode ser estendido a outros esportes. Outro destaque fica por conta da história do personagem principal, Nelson Mandela. Sem dar muita complexidade ao homem, a história de Madiba (como Mandela era chamado pelos seus seguidores) é representada de forma muito linear e com pouca expressividade. Algumas vezes parece haver um empenho em reforçar a boa e ilibada imagem do presidente, (como a cena de quando recebe seu pagamento e, imediatamente, abre mão de 1/3 do seu direito por achar que recebia muito). Um esforço desnecessário, haja vista a já consolidada imagem de Mandela. Clint Eastwood é um daqueles diretores que dificilmente erra em suas produções. Com poucas inovações (poucas mesmo, rs) e marcado por um estilo tradicional (o que não é um defeito a priori) suas obras sempre alcançam um bom resultado. A carga de sentimentos é sempre bem explorada nos filmes de Eastwood, neste filme, uma vez mais, explorou este aspecto. Quanto às atuações de Morgan Freeman e Matt Damon (um coadjuvante de extremo luxo), podemos dizer que continuam invictus (sic...rs). Neste caso, vale apenas uma ressalva. No livro Conquistando o inimigo (fonte inspiradora para o filme), de Jonh Carlin, um dos personagens principais da história é o ex-capitão do time e dirigente Morné du Plessis. No filme, este sequer é citado e o personagem de Matt Damon (François Pienaar – capitão do time) assume todas as glórias pelas ações. Uma injustiça que pode ficar para a história. Enfim, apesar de alguns equívocos o filme deve cumprir o seu papel. Ou seja, “vender” uma boa imagem do país sede da Copa para o cenário internacional (afinal, o fantasma do último atentado em angola, contra seleção de Togo, ainda paira sobre a África do Sul). O problema, neste sentido, é que a realidade fica bem longe da ficção e não sabemos, nem temos controle, como no filme, sobre como será a história da copa africana. Sobre isto, somente poderemos tratar, doravante, ao final do espetáculo. (Que venha a Copa do Mundo de 2010). Ps.: Invictus é um belo poema escrito por Willian E. Henley, em 1875, que serviu como fonte de sobriedade, equilíbrio e força para Nelson Mandela durante o seu período preso (27 anos). Marcado no filme pelos trechos: “Eu sou dono e senhor do meu destino” e “Eu sou o comandante da minha alma” o texto completo é de uma grande profundidade. Vale a pena conferir. Lá vai: Poema Invictus Do fundo desta noite que persiste A me envolver em breu - eterno e espesso, A qualquer deus - se algum acaso existe, Por mi’alma insubjugável agradeço. Nas garras do destino e seus estragos, Sob os golpes que o acaso atira e acerta, Nunca me lamentei - e ainda trago Minha cabeça - embora em sangue - ereta. Além deste oceano de lamúria, Somente o Horror das trevas se divisa; Porém o tempo, a consumir-se em fúria, Não me amedronta, nem me martiriza. Por ser estreita a senda - eu não declino, Nem por pesada a mão que o mundo espalma; Eu sou dono e senhor de meu destino; Eu sou o comandante de minha alma. É isso aí, encontro vocês na próxima sessão. Grande Abraço, Ricardo Bull Em 25 Janeiro de 2010 Filme: Amor sem Escalas (Up in the Air) – Comédia Dramática - Tempo de Duração: 109 minutos (EUA - 2009) Direção: Jason Reitman ![]() Um retrato dos nossos dias. Jason Reitman, o mesmo diretor de Juno(2007) e Obrigado por Fumar (2005), conseguiu manter a qualidade mesmo fazendo uma comédia para o grande público. Diferentemente dos dois filmes anteriores, que obtiveram bilheterias não expressivas para o cinema americano, o diretor parece ter conseguido achar o ponto médio na sua produção. Fazer um filme que levantasse boas questões e, do mesmo modo, agradar o grande público e, consequentemente, fazer bilheteria. O primeiro grande passo foi ter acertado na escolha de George Clooney (Ryan Bingham) para o papel principal. O galã americano, ainda em alta, com uma boa atuação consegue dar o tom certo para o personagem central da história. Além, é claro, de fazer vender melhor o filme. Além dele, a bela Vera Famiga (Alex Goran) e novata Anna Kendrick (Natalie Keener) mantém o circuito em boa sintonia e qualidade. O casal Clonney e Famiga obteve uma química muito boa e, da mesma forma, Anna Kendrick participa de tudo a altura. Enfim, um filme pra dar certo. Apesar de parecer somente uma comédia romântica e ter sido baseado numa obra de 2001 (o roteiro começou a ser escrito logo em seguida, em 2002) o filme é “surpreendentemente” atual. Tudo parece ter convergido para o filme ter a sua estréia neste momento. A crise econômica de 2009 (o desemprego em massa causado por ela) e os sucessivos esforços (nem sei mais se é tão esforço assim) para tornar nossas vidas cada vez mais vazias (ou diria hi-tech) tornam o filme uma experiência atual e promovem uma reflexão necessária. A história contada é a de Ryan Bingham. Um consultor responsável por demitir pessoas para as empresas e que prega em suas palestras, utilizando a metáfora da mochila vazia, que viver sem criar laços (sejam eles quais forem) é o melhor investimento. Fruto dos nossos tempos, repleto da efemeridade e da impessoalidade que vivemos no hodierno, a vida de Ryan parece estar caminhando para a sua plena “felicidade”. Alcançar os 10 milhões de milhas e se tornar um ultra vip da companhia área. O problema é que aparece na sua vida duas mulheres, Alex e Natalie, que mudam completamente o seu destino. Uma espécie de redenção para aquele que pregava o desapego humano e que, mesmo na família, parecia um estranho. Nenhum lugar é mais significativo do que o aeroporto para tratar do tema. A impessoalidade dos aeroportos e a dificuldade de estabelecer/firmar laços humanos numa ponte área são emblemáticos, neste sentido. Um paradoxo chama a atenção no filme. Natalie propõe a empresa de Ryan um sistema de vídeo conferência que tornaria o custo da empresa menor e, sobretudo, mais impessoal. Ou seja, a exacerbação da impessoalidade. Quem sabe chegará o dia em que seremos demitidos pelo msn ou pelo orkut. Ryan (o impessoal) questiona o serviço e diz que e necessária à presença em momentos como esse. Por fim, o filme é engraçado na medida certa, romântico, de forma inteligente, e dramático nas suas entrelinhas. Vale a pena conferir um filme atual, leve, mas que não deixa de apontar para dramas profundos das nossas vidas. É isso aí, encontro vocês na próxima sessão. New York é logo ali...saudades... Grande Abraço, Ricardo Bull Em 10 Janeiro de 2010 Amigos, Feliz Ano Novo para todos... Um ano repleto de bons filmes, bons sonhos e ótimas realizações... Filme: Hanami – Cerejeiras em Flor (Kirschblüten - Hanami) – Drama - Tempo de Duração: 127 minutos (Alemanha – França - 2008) Direção: Doris Dörrie Para refletir... Hanami - Cerejeiras em flor é um filme surpreendente. Sem pieguice e, sobretudo, com um roteiro bem desenvolvido o filme, que trata de temas já bem conhecidos do cinema, comove, surpreende e, fatalmente, faz pensar. É sempre bom assistir a filmes que nos faça pensar, principalmente quando somos massacrados por uma dúzia de filmes óbvios e com pouca sensibilidade. A responsável pelo belo filme é Doris Dörrie, desconhecida pelo grande público brasileiro, nascida em Hannover em 1955, é uma famosa diretora de cinema alemã. Formada pela escola superior de cinema de Munique, ela se tornou conhecida mundialmente com o filme Homens, de 1985. Doris também é autora do livro O Vestido Azul, pela editora Globo. (vale a pena experimentar a sua veia literária) Felicidade, Amor, dor, velhice, abandono e cumplicidade são alguns dos temas apanhados no filme. A película conta a história de um casal, Rudi Angermeier (Elmar Wepper) e Trudi Angermeier (Hanellore Elsner), que vive uma rotina bem definida pelo moldes de uma cidadezinha do interior. Moradores de um vilarejo no interior da Alemanha, com poucos amigos (talvez nenhum), o casal repete todos os dias o mesmo ritual. Ambos estão “mecanicamente adestrados” (a cena de Rudi retornando do trabalho e entrando em casa é emblemática neste sentido). Assim sendo, parece que nada pode abalar a felicidade (se assim definirmos) do casal. Entretanto, uma noticia abala a rotina do casal. Trudi recebe a noticia que seu marido tem uma doença muito grave e, decidida a não contar a verdade, resolve rever os filhos e promover ao marido um “bom” final de vida. Uma espécie de busca tardia pela felicidade de Rudi, que ao longo da vida teve alguns sonhos paralisados pelo jeitão meio abatido do marido. De qualquer forma eles partem para a viagem. Nesse momento o filme tem o seu primeiro grande movimento. Na verdade, a partir deste ponto o filme passa por várias mudanças que surpreendem e, principalmente, fazem pensar. Talvez uma ou outra cena fique fora do contexto. Mas, no conjunto, o filme consegue dar conta do recado. ![]() Doris Dörrie consegue como resultado final um filme de ótima qualidade. Reflexivo, sem obviedades e com temas muito significativos. Merece destaque a atualidade das tramas familiares que são desenvolvidas no interior da família Angermeier, da mesma forma que o amor incondicional e atemporal do casal Trudi e Rudi, Enfim, uma linda história de Amor. É isso aí, encontro vocês na próxima sessão. Grande Abraço, Ricardo Bull Em 16 de Dezembro de 2009 Filme: Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos) – Drama - Tempo de Duração: 128 minutos (Espanha - 2009) Direção: Pedro Almodóvar Almodóvar, sempre Almodóvar ![]() É sempre muito difícil escrever sobre filmes dirigidos por grandes diretores. Almodóvar, sem dúvida, está neste grupo seleto dos grandes gênios do cinema. Desse modo, talvez possa vir a cometer alguma injustiça descabida, ou ousada demais, para um jovem critico/admirador da sétima arte. Um filme sobre o cinema. Assim definiria abraços partidos. As referências são inúmeras. Audrey Hepburn, atriz de grande sucesso na década de 50, referências ao seu próprio quartel de filmes, como a alusão a Mulheres à beira de ataque de nervos (1988) e a referência a Marilyn Monroe. Enfim, são várias as cenas em que as referências cinematográficas são os grandes destaques. Tudo isso com muita delicadeza e perfeição. O roteiro não se perde. Apesar de trabalhar com dois recortes de tempo (passado e presente num mesmo plano) a dinâmica e a inteligibilidade do filme não fica comprometida e o resultado, como já esperado, é um filme que prende a atenção. Do começo ao fim Almodóvar consegue contar uma história coerente e bem definida. O filme tem algumas marcas emblemáticas da filmografia do diretor. As cores vivas, notadamente o vermelho, e as tomadas bem próximas são chamam a atenção durante o filme. Um bom exemplo é a cena de uma lágrima caindo sobre um tomate e o acompanhar dos passos da atriz principal. A história contada é a de um diretor cinema, Mateo Blanco (Lluis Homar), cego há quatorze anos, que conta a sua história para um jovem, filho de sua assistente, depois de um acidente com drogas. Durante a sua recuperação o Jovem indaga sobre o passado de Harry Caine (pseudônimo de Mateo Blanco). Mateo, naquele momento respondendo apenas por Harry conta a história de sua grande paixão, Lena (Penélope Cruz), de como ficou cego e, fundamentalmente, de como apagou da sua vida o seu verdadeiro nome. Cheio de nuances psicológicas o filme tem uma boa carga reflexiva sobre as relações humanas. Enfim, Almodóvar está de volta com a sua atriz queridinha. Penélope Cruz atuou em outros bons filmes do diretor, foram eles: Carne Trêmula (1997), Tudo Sobre Minha Mãe (1999) e Volver (2006). Neste, Penélope está estonteante, madura e, sobretudo, atuando de forma magnífica. Almodóvar, como sempre Almodóvar. No mínimo, muito bom. ![]() É isso aí, encontro vocês na próxima sessão. Grande Abraço, Ricardo Bull Em 23 de Novembro de 2009 Filme: Terra Sonâmbula – Drama - Tempo de Duração: 98 minutos (Portugal/Moçambique– 2007) Direção: Teresa Prata O continente africano é, ainda hoje, um lugar a ser descoberto. Marcado pelas guerras, pela miséria e por inúmeras outras mazelas, a África precisa de um pouco mais de atenção. Esse é o cenário que, em larga escala, conhecemos deste continente. Foi partindo deste ostracismo sombrio que fiz a minha escolha desta semana. Necessária, a meu ver, para conhecermos obras que nos brinde com uma beleza, em muito, desconhecida. ![]() Terra Sonâmbula é um filme, baseado na obra homônima do moçambicano Mia Couto (1ª edição de 1992), que tem como grande painel a Guerra Civil Moçambicana. Apesar de tratar do ambiente nefasto da guerra, o filme tem um ótimo desdobramento e uma beleza estética bem interessante. Com diálogos bem elaborados, com atuações bem adequadas e com uma bela fotografia, a portuguesa Teresa Prata consegue produzir um filme leve, sensível e muito bonito. O filme não chega a chocar, tampouco emocionar, mas o conjunto da obra é harmônico e, ao final do filme, promove a sensação de querer conhecer mais sobre o cinema e a literatura africanos. Vale destacar, neste sentido, que algumas falas tocam em questões duras e apropriadas aos nossos dias e as nossas experiências cotidianas. “Não agüento mais viver entre mortos” e “se não fosse à leitura estaríamos condenado à escuridão” são apenas duas das inúmeras frases que nos faz pensar sobre nossas vidas. A nossa cidade “maravilhosa” que vive repleta de balas perdidas e corpos por todos os cantos, inclusive em carrinhos de supermercado, bem como a obscuridade literária da nossa juventude, tornam as questões de Moçambique fáceis de serem compreendidas. Na estrada de terra de uma Moçambique em guerra, Muidinda (Nick Lauro Teresa) e Tuahir (Aladino Jasse) perambulam atrás de um pouco de paz. O cenário é devastador. A guerra que separou Muidinga de seus pais, foi a mesma que o uniu ao velho “rabugento”. Os diálogos entre os dois protagonistas e, sobretudo a sintonia entre eles fazem o filme assumir um caráter duro, porém, ao mesmo tempo poético. Apesar de não serem atores profissionais, as atuações são muito boas. O aparecimento de um diário e a sua leitura, feita pelo jovem menino, nos remete as infinitas possibilidades que conseguimos alcançar com um livro, mesmo no caso de um diário. O caminho de ambos acaba sendo traçado através desta leitura. O Trajeto percorrido por Muidinga e Tuahir, movido pelo sonho de achar a família e a paz, promovem ao filme, cercado pela guerra, momentos de grande ternura e sensibilidade. Uma magia contagiante ressaltada com a atuação Nick L.Teresa. Enfim, Terra Sonâmbula é um filme que merece destaque. Sua sensibilidade e magia têm o tom certo para não torna-lo cansativo e cheio de mesmices. O único pesar é o número exíguo de películas do cinema africano. Ao fim e ao cabo, uma boa experiência. Obrigado pelos contatos, ( Este endereço de email está protegido de spam bots, necessita ter o Javascript activado para o poder visualizar ) Continuem enviando mails com sugestões e críticas. Grande Abraço, Ricardo Bull Em 13 de Novembro de 2009 ![]() Filme: Besouro – Ação - Tempo de Duração: 95 minutos (Brasil– 2009) Direção: João Daniel Tikhomiroff Quando assisti ao Trailer não tive dúvidas, Besouro estaria na relação dos filmes que iria assistir. Fui bem-disposto ao cinema assistir ao filme e acabei tendo uma grande decepção. Minha conclusão é simples, o trailer é muito melhor que o filme. Dinâmico, com pontos bem apresentados e com uma velocidade bem adequada ao cinema americano (não que este seja o melhor, longe disso. Mas, tem um ritmo fácil de ser visto), o material de divulgação do filme convence antes mesmo de chegar ao final (pouco mais de 2 minutos). Afinal, qual foi o problema de besouro? Um filme de capoeira, arte onde o jogo, a dança e a luta se misturam numa sincronia perfeita, tinha tudo para emplacar uma grande produção. Com a sua plasticidade corporal impar, que empolga de imediato, um filme de capoeira fugiria da onda de filmes sobre violência urbana e comédia que estamos repetidamente assistindo na grande tela. Com isso, teria tudo para inovar e, fundamentalmente, para construir uma boa e nova narrativa. Vejamos, então, alguns pontos relevantes: Pouco conhecido fora das rodas de capoeira, a história de besouro merecia um detalhamento maior ou, noutro sentido, deveria se investir mais na capoeira. Na verdade, o que aconteceu foi que nem a história do protagonista empolgou, nem a capoeira teve a chance de mostrar seu potencial estético numa seqüência mais elaborada/demorada do jogo. Ambos os equívocos tornam o filme monótono. Para um filme de capoeira, tal fato é imperdoável. O momento histórico tratado no filme, década de 20 do inicio do século passado, uma grande turbulência agitava o Brasil. Os primeiro anos da nossa República são decisivos para a reconstrução da condição negra no País. Nesse sentido, parece muito linear a condição exposta no filme. Parece que a resistência ainda era pífia. Talvez no interior do recôncavo baiano. Mas, ainda sim merecia uma investigação histórica mais apurada. A trilha sonora decepciona. Para quem espera uma trilha marcada pelos belos cânticos das rodas de capoeira, por diversas vezes se pega ouvindo uma espécie de trance de capoeira, confuso diante das imagens que estavam sendo exibidas. Outra confusão gira em torno das entidades religiosas exploradas no filme. Somos tantas, que as confusões são inevitáveis. O filme também levanta pontos positivos. Tratar da escravidão na pós-abolição é uma temática muito interessante, expõem de forma conveniente às mazelas de uma população que, até nossos dias, sofre com o trabalho escravo e a exploração. Enfim, tomei um “rabo de arraia” (uma rasteira para os não capoeiristas) do filme. Com atuações fracas e um roteiro que fica na promessa, o filme deixou a desejar os ávidos por ação no cinema contemporâneo brasileiro. Mas, continua fazendo grande bilheteria. Ao fim e ao cabo, o cinema brasileiro continua na sua corrida pelas grandes bilheterias. Beijo no coração de todos. Ricardo Bull Em 30 de Outubro de 2009 Filme: Michael Jackson´s This is it – Documentário - Tempo de Duração: 102 minutos (EUA– 2009) Direção: Kenny Ortega ![]() Para quem acompanhou, assim como eu, a trajetória do maior ídolo do pop mundial, o documentário de Kenny Ortega nos serve para confirmarmos a grandeza de um profissional completo e apaixonado pelo seu público. This is It é uma verdadeira aula de como se faz um grande espetáculo. Melhor dizendo, o maior de todos os espetáculos. Fica claro logo de inicio que o documentário não é sobre a vida de Michael, mas sim dos bastidores da turnê que o cantor faria em Londres, em julho deste ano (isso ainda passava na cabeça de algumas pessoas). Com a tela escura e com um texto digno de uma epopéia a película é apresentada com um tom saudoso. Antecedida por alguns emocionados e emocionantes depoimentos, estratégicos, pois causa ainda mais suspense para a aparição do ídolo, eis que surge Michael Jackson, dançando brilhantemente. Feliz, com muito vigor, carinhoso e, acima de tudo, senhor de todo o espetáculo, Michael mostra o quanto queria fazer aquilo e o quanto ele era grandioso. Resultado de ensaios, as filmagens deixam isso claro. Mostram as interferências, as repetições, os erros e, principalmente, a obsessão pela perfeição. Uma mixagem de várias câmeras, algumas com qualidade bem inferior, mostram o quanto foi desgastante a preparação para o show. A dedicação do astro principal ditava o tom dos ensaios. O filme apresenta o que seria, ou se pretendia, o maior espetáculo de todos os tempos (não duvido que realmente fosse). Alguns aspectos surpreendem no filme, talvez resultados de uma boa edição, mas, são reveladores do perfil e do que os milhões de fãs poderiam esperar do astro. O mais surpreendente é, sem dúvida, o vigor e a capacidade de dançar, e hipnotizar, de um homem de 50 anos de idade, acompanhando jovens dançarinos, escolhidos com a participação do próprio cantor. Em nenhum momento é visível o cansaço ou mesmo é percebida a doença pela qual passava Michael. Como disse talvez fruto de uma boa edição. Fot the fans, faz parte do texto inicial do documentário. A frase é significativa e emblemática, pois durante os ensaios isso era reforçado a todo instante pelo astro. Interessante, neste sentido, é descobrir em todos que participavam da produção do espetáculo um fã de Michael Jackson. Enquanto ele dançava e cantava durante os ensaios, aqueles que não estavam envolvidos com o set aplaudiam e curtiam o show particular. Privilégio de poucos. Sobre o repertório podemos destacar alguns pontos. Em Human Nature Michael faz um apelo para cuidarmos melhor do meio ambiente. Nada mais adequado aos nossos dias. Em Smooth Criminal o show trás o filme Gilda, clássico de 1946 dirigido por Charles Vidor, para o palco. Nele, o cantor participa do filme e interage com os personagens, numa perseguição digna dos gangsters dos anos 40. A versão nova de Thriller ganha uma aranha gigante e alguns outros apetrechos, mas, nada que fosse mais importante que a coreografia original dançada no final da música. E por fim, em Billie Jean, o cantor parece não usar muito os movimentos de pernas, constante na coreografia original. De qualquer forma, nada disso consegue ofuscar o brilho de Michael Jackson. Kenny Ortega, que também foi diretor dos musicais High School Musical 1, 2 e 3, sucesso de bilheteria, é, algumas vezes, coadjuvante no espetáculo do mais famoso da família Jackson. A seriedade e competência como Michael participa do espetáculo fazem dele o grande eixo da produção. Enfim, apaixonados pela década de 80, pela dança e, sobretudo, por produções que vislumbre inovações e contem uma bela história, assistam à última exibição do maior astro de todos os tempos. Para aqueles que ainda procuram reforçar a trajetória polêmica do astro, também assistam, pois acredito que já nos primeiros passos estas questões serão menores diante do fascínio que o dançarino provoca. Como não poderia perder o momento. This is it, rs Beijo no coração de todos. Em 08 de Outubro de 2009 Olá amigos, Filme: Salve Geral – Drama - Tempo de Duração: 120 minutos (Brasil– 2009) Direção: Sérgio Resende Amigos, estamos de volta com um filme nacional. Agora com um possível concorrente ao Oscar 2010 na categoria de melhor filme estrangeiro. Sérgio Resende está ficando veterano nisso. Concorreu com dois outros filmes ao mesmo prêmio em 2002 (Carandiru) e 2007 (Próxima parada 174). Em comum, filmes que tratam de acontecimentos reais e que, acima de tudo, colocam problemas graves do país na grande telona. Como já dito em outras ocasiões, temos mais uma obra que espetaculariza as mazelas do Brasil, sem dar grandes passos dentro do cinema. Enfim, vamos ao filme. A película trata dos ataques orquestrados por uma facção criminosa, Primeiro Comando da Capital (PCC), à cidade de São Paulo. Esse é o mote central do filme. Entretanto, histórias paralelas acabam emergindo e às vezes confundindo esse trabalho. Ou seja, os ataques dos criminosos em alguns momentos deixam de ser o centro e passam a ser coadjuvante entre duas histórias de amor (mãe e filho/ mocinha e bandido) e a polêmica, não menos verdadeira, falência e fragilidade do Estado. ![]() O filme começa com uma família de classe média se desestruturando financeiramente e com um “jovem” imaturo causando uma tragédia e sendo preso pelo seu crime. Com a prisão de Rafael (Lee Taylor), por ter matado a tiros uma jovem, sem intenção, durante uma briga, Lúcia (Andréia Beltrão) começa sua saga para libertar seu único filho. Também muito desestruturada e com uma ingenuidade inicial pouco convincente, Lúcia tem o seu caminho atravessado por Ruiva (Denise Weinberg) e pelo professor (Bruno Perillo), lideranças da organização criminosa. Dois fatos chamam atenção nestas relações. Primeiro é a forma como a ruiva domina completamente as ações de Lúcia. Segundo, a maneira como Lúcia se envolve com o professor. Tudo bem que naquele momento a mãe de Rafael estivesse fragilizada e muito atordoada com tudo que estava acontecendo. Mas, daí transar dentro do presídio como aconteceu e deixar se manipular por uma desconhecida daquela forma, parece muito forçado. Outro dado importante foi à forma como o Estado de São Paulo foi apresentado. Fundamentalmente, a Secretaria de Segurança Pública e seus agentes. Neste caso, talvez o fato que mais aproxime o filme da realidade. As veias abertas da segurança do Estado diagnosticam uma morte eminente. O filme é muito interessante neste aspecto. Pelo menos por ter dilacerado uma estrutura já bem conhecida da nossa sociedade. Um poder “paralelo” que se encontra mais do que pensamos. No mesmo filme, como disse foram muitas informações, temos o PCC “tomando conta” do Estado. Fazendo e desfazendo, ao seu bel prazer, as ações que queriam. Ainda que em algumas circunstâncias as lideranças da organização criminosa ficassem pouco convincentes, a forma como se relacionavam com o Estado foi bem retratada. Destacaria no filme as ótimas atuações de Andréia Beltrão, Denise Weinberg e do jovem Lee Taylor. Apesar dos pequenos problemas de roteiro, elas merecem aplausos. Sobre a história, chamado pelo diretor como o 11 de setembro de São Paulo, sentimos falta da exposição real da resposta da polícia ao evento. No filme, mostrado com apenas duas cenas rápidas de mortes gratuitas. Devemos lembrar que foram mais de 500 mortes nesta ocasião. Enfim, o filme que pode disputar a estatueta em 2010 leva para as telonas problemas estruturais sérios do nosso país. Torna-los ainda mais visíveis pode ser considerado um mérito. Entretanto, compreendo que como produção cinematográfica peca em alguns aspectos. Vejo vocês no cinema. Beijo no coração de todos. Em 21 de Setembro de 2009 Olá amigos, ![]() Filme: A Partida (Okuribito) – Drama - Tempo de Duração: 130 minutos (Japão– 2008) Direção: Yojiro Takita Sabemos pouco sobre os hábitos dos países orientais. O Japão entra na lista destes países dos que conhecemos apenas aquilo que nos chega, fundamentalmente, através da televisão. Sabemos de forma muita superficial, que são repletos de rituais e práticas culturais que, em larga escala, contribuem para a construção do imaginário daqueles países. O belíssimo filme do diretor Yojiro Takita nos ajuda há compreender um pouco mais sobre a cultura deste país “desconhecido”. Ganhador do Oscar 2009 de melhor filme estrangeiro a obra consegue emocionar e debater questões muito interessantes. Entretanto, apesar da eloqüência, a película não trás nada de novo na sua estrutura, tampouco no seu roteiro. Outros filmes como Valsa com Bashir (Israel/Alemanha/França/EUA, 2008) e Entre Les Murs (França, 2008), que concorreram ao mesmo Oscar de 2009, são muito mais originais e com debates mais interessantes e intensos. O filme conta a história de Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki). Um violoncelista que retorna a sua cidade natal depois que a orquestra onde tocava é dissolvida. Acompanhado pela sua mulher Mika Kobayashi (Ryoko Hirosue) e reconhecendo o limite do seu talento, Daigo tem que buscar um novo emprego para o sustento da família. Diante das circunstâncias, ele acaba aceitando o emprego de “preparador de corpos” numa funerária. A profissão conseguida por Daigo traz a tona no filme o principal eixo reflexivo. Notamos que dependo do lugar que se ocupa e da relação e envolvimentos que o individuo têm com o ritual, neste caso estabelecido entre a figura do “preparador de corpos” e a família do falecido, os agentes envolvidos assumem papeis diferente diante de preconceitos tão comuns da sociedade. A morte e, consequentemente, o ritual de preparação da senhora proprietária da casa banho é emblemática para a compreensão dos reposicionamentos dos valores simbólicos e reais da profissão de Daigo. Preconceitos e valores são debatidos com frescor no filme. Por se tratar de um povo que conhecemos pouco e, sobretudo, pelo encantamento visual e sonoro da obra, o filme causa de imediato uma emoção muito grande. No entanto, se deslocarmos a emoção e investirmos num debate mais profundo o filme fica no meio do caminho. O grande destaque da fotografia (Takeshi Hamada), de certa forma comum aos filmes orientais, e da música (Joe Hisaishi) suave e profunda que permeia toda a obra, contribuem para a construção de um filme premiado com o Oscar. Diria que, como conclusão, A Partida é um ótimo lazer para o grande público. Vale ressaltar que o ganhador do Oscar de Melhor filme em 2009 foi Quem quer ser um milionário (EUA-ING- 2009), uma produção com o perfil bem próximo deste que debatemos. Tal fato parece marcar o que academia estava disposta a fazer com os prêmios. Vejo vocês no cinema. Beijo no coração de todos. Em 11 de Setembro de 2009 Olá amigos, Fiquei fora durante este mês preparando um capítulo de livro, onde escrevo sobre cinema, e fazendo alguns outros trabalhos que me consumiram muito tempo. Desse modo, apesar de todo esse trabalho, peço desculpas pela ausência. Obrigado pelas mensagens e aguardo mais contatos de todos. Este endereço de email está protegido de spam bots, necessita ter o Javascript activado para o poder visualizar Vamos ao filme da semana Filme: O Sequestro do metrô 123 (The Taking of Penham 1 2 3) – Ação - Tempo de Duração: 121 minutos (EUA - INGlATERRA– 2009) Direção: Tony Scott ![]() Tony Scott, irmão mais novo de Rildley Scott, retorna a grande tela com um filme sem grandes atrações e inovações. Salvo o visual agressivo de John Travolta (Ryder), bem diferente do Tony Manero da década de 80, o filme se desenvolve em torno de um roteiro bem conhecido dos filmes de ação. O diretor de Déjà Vu (EUA -2006), diga de passagem bem mais interessante, peca pelos excessos no seu novo trabalho. O livro de John Godey, utilizado para o roteiro do filme, já gerou duas outras películas. O Sequestro do Metrô (1974) e, anteriormente, Inferno Subterrâneo (1998). Apressadamente, esse não é um dado relevante que comprometa a análise do filme. No entanto, alguns pontos tratados no filme, como terrorismo, ou pelo menos a leitura apressada de que tudo é terrorismo, passaram a ser demasiadamente explorados após o pós 11 de setembro de 2001. Neste sentido, a temática acaba proporcionando um novo debate. O seqüestro do metro 123 é um filme em que um homem comum salva o dia em Nova York. Como disse uma proposta bem conhecida. Outro ponto que parece um lugar comum é Denzel Washington (Walter Gerber) nesses papéis do grande salvador. Ele, que não perde a cara de filme de ação/policial, assume o papel de controlador de tráfego de metrô e acaba como um verdadeiro policial como arma em punho. Vale lembrar que o ator parece ser um queridinho de Scott. Neste lançamento completam quatro filmes em que o ator assume o papel principal (Maré Vermelha (1995), Chamas da Vingança (2004) e Déjà Vu (2006)). Apesar de todos estes detalhes, mais uma vez o ator tem uma boa atuação. O filme por diversas vezes fica inverossímil nas suas tomadas. A principal delas ocorre quando a policia do Estado leva o dinheiro para a Gerber entregar a Ryder. Uma seqüência de inúmeros acidentes que, para um escolta de batedores, devemos ao menos ponderar. Nesse caso, a Lei de Murphy é utilizada em demasia. Um destaque maravilhoso, garantidor de uma boa risada, fica por conta da jovem namorada que cobra do seu namorado uma resposta quanto ao seu amor por ela. Mesmo sabendo que o vagão esta com possíveis “terroristas” ela diz que ele poderia apenas emitir um som qualquer, para que ela não ficasse sem resposta. Enfim, um filme regular com caras conhecidas, com um enredo fácil e, fundamentalmente, previsível. Vejo vocês no cinema. Beijo no coração de todos. Em 10 de Agosto de 2009 Olá amigos, Antes de começar a falar sobre o filme desta semana, irei fazer algumas sugestões paralelas. Casamento silencioso- Drama – Romênia – 86 minutos – Um ótimo filme romeno que, além de uma estrutura diferenciada, apresenta uma ótima reflexão sobre a possibilidade de se estar aprisionado mesmo que aparentemente livre. O cinema Romeno é ótimo e reafirma isso no filme. Caramelo (Sukkar Banat) – Comédia/Drama – França/Líbano - 95 minutos – Apesar de o universo feminino ser uma temática constante no cinema, a libanesa Nadinie Labaki, Diretora e atriz, consegue produzir um ótimo filme. Marcado pelo universo feminino, passado fundamentalmente dentro de um salão de beleza, os dramas vividos são retratados com ótimas atuações das não-atrizes convidadas para a película. Vale a pena conferir. Obrigado pelo mensagens e aguardo mais contatos de todos. Este endereço de email está protegido de spam bots, necessita ter o Javascript activado para o poder visualizar Vamos ao filme da semana Filme: O Contador de Histórias – Drama - Tempo de Duração: 110 minutos (Brasil– 2009) Direção: Luiz Villaça Era uma vez... Uma história imperdível. Antes de começar a escrever propriamente a critica sobre o filme, devo confessar uma coisa. Quando fui ao cinema assistir a este filme já esperava um bom trabalho, sobretudo por antecipadamente conhecer a história do personagem principal. A vida de Roberto Carlos Ramos é simplesmente uma linda história de amor. Quer dizer, nem tão simples assim, como bem mostra o filme repleta de dores, preconceitos, violência e tudo mais que o país oferece as crianças abandonadas ao nosso redor. Roberto Carlos Ramos fez parte deste grande universo de crianças que, sem oportunidades, acabam virando estatísticas em folhetins policiais. Diferentemente do que se esperava e contrariando as pessimistas previsões, exceto de sua mãe que na sua ingenuidade e ignorância achava que a FEBEN iria lhe dar condições (casa, comida e escola) para “crescer na vida”, Roberto não virou estatística, virou pedagogo e está entre os maiores contadores de história do mundo. Filho mais novo de uma família grande e muito pobre, eram nove irmãos, Roberto acabou pagando por uma propaganda enganosa. Durante um comercial da FEBEM, vinculado durante o governo militar, sua mãe tomou a decisão de entregar o seu filho a Instituição que poderia, como afirmava o comercial, prover seu filho de boa alimentação e ensino de qualidade e, consequentemente, lhe possibilitaria um futuro melhor. Assim, Roberto C. Ramos chegou a FEBEM, aos 7 anos de idade. Depois de inúmeras escapadas o menino já era rotulado como irrecuperável. Nada diferente dos determinismos simplistas veiculados todos os dias no nosso país. No primeiro encontro com a pedagoga francesa Margherit (Maria de Medeiros, de Pulp Fiction) o rótulo já está fixado e as marcas do “bom” ensino e da “boa” alimentação já estão bem visíveis no jovem. Mas, o mais surpreendente é a história contada pela criança a pedagoga. Misturando uma grande dose de fantasia e humor, Roberto (Marcos Ribeiro – aos 7 anos) “descreve” a sua (deliciosa e fantasiosa) história sobre a sua chegada a FEBEM. ![]() Mais de 100 fugas, inúmeras brigas, um sem números de pequenos furtos, violência sexual e tendo como ídolo o “pior” bandido da área a história desse garoto tinha tudo pra dar errado. Mas deu certo. Disse no inicio deste texto que a história do protagonista era uma história de amor. Chegou à hora de explicar. Apesar de toda violência e de todas as dores vividas pelo jovem, foi o amor da pedagoga que salvou o Roberto Carlos. Um amor inexplicável, insensato, inesperado mas, sobretudo, salvador. Por isso uma história de amor. Marcos Ribeiro, Paulo Mendes e Cleiton Santos, interpretam Roberto Carlos aos 7, 13 e na fase adulta respectivamente, fazem um ótimo trabalho. Jú Colombo, no papel da mãe do menino, também é muito boa no seu desempenho. Trabalhar com afirmações já conhecidas e de certa forma já batidas no cinema é sempre um desafio e, neste sentido, podemos dizer que o resultado final é muito tocante. Enfim, entre as fantasias de um contador de histórias e a dura realidade da sua própria história, o filme que revela a vida de Roberto Carlos Ramos através de um emocionante e comovente filme nos leva a pensar sobre o que fazemos, falamos e, sobretudo, sentimos sobre nossas próprias histórias. Nos encontramos no cinema, Beijo no coração de todos. Olá amigos, fiquei fora esta última semana, mas estou de volta e com boas novidades no cinema nacional. Em 03 de Agosto de 2009 Filme: À deriva – Drama - Tempo de Duração: 103 minutos (Brasil– 2009) Direção: Heitor Dhalia O mesmo diretor de O cheiro do ralo (2006), Heitor Dhalia, retorna as grandes telas com um bom filme. Diria que À DERIVA, para quem acompanhou a produção do diretor, é um filme surpreendente em alguns aspectos. Notadamente, o que mais chama a atenção, é a estrutura do filme. Diferente das duas últimas produções (incluindo Nina - 2004), o filme investe numa ótima fotografia e num roteiro mais fácil para o grande público. O caráter mais denso das produções anteriores não se repete em À deriva. Entretanto, estas escolhas, não tornam o filme menos interessante. Talvez, esta diferença, promova ao filme um bom número de espectadores e, numa fase onde se comemora os grandes públicos do cinema nacional (Se eu fosse você 2, Mulher invisível e Divã) está talvez tenha sido uma boa estratégia. ![]() Centrado fundamentalmente na vida de Filipa (Laura Neiva), 14 anos, o filme retrata as turbulências de uma adolescente conhecendo as dores e amores do mundo real. As fantasias de criança vão dando lugar à desordem da juventude. Vale ressaltar, neste sentido, que a jovem atriz é uma bela surpresa no filme. A sua ótima atuação promove ao filme um bom ritmo e equilíbrio. Filha de Matias (Vincent Cassel) e Clarice (Déborah Bloch), um casal que tenta recuperar o casamento nas férias em Búzios, Filipa descobre a traição do pai e começa a viver uma grande confusão de sentimentos. A decepção com a descoberta da amante do pai, Ângela (Camilla Belle), as confusões de uma jovem adolescente em plena transformação, acompanhadas de um amor que transcende a paternidade faz de Filipa um personagem complexo e muito interessante. O filme tem dois pontos que chamam a atenção. O primeiro se refere ao amor de Filipa por Matias. Uma relação que faz a jovem viver a dor e o amor muito além dos sentidos familiares. As vezes que Filipa assiste o pai transando com a amante, seguida da cena em que ela invade a casa da amante e se “fantasia” querendo “viver” ou “ser” Ângela são bons pontos análises. O outro ponto de destaque é a virada do filme na sua última parte. O roteiro todo o tempo apresenta uma linearidade entre a traição do pai e desestrutura da família. No entanto, a descoberta que a mãe é a personagem central do rompimento familiar promove a produção um ótimo desfecho. Enfim, uma mãe aprisionada numa vida que não mais deseja, um pai que trai e ao mesmo tenta salvar a família e uma jovem adolescente que descobre o mundo dos adultos de uma maneira bem realista formam uma boa tríade no novo filme de Heitor Dhalia. Um bom filme para o fim de semana. Vale a pena conferir. Abraço para todos Nos encontramos por aí. Em 06 de julho de 2009 Filme: Tinha que Ser Você (Last Chance Harvey) – Romance - Tempo de Duração: 92 minutos (EUA / Inglaterra– 2009) Direção: Joel Hopkins Leve e apaixonante. Tinha realmente que ser você Esta semana o filme escolhido foi um romance bem leve. Um filme, ressaltariam os românticos de plantão, feito para os corações solitários (agora não mais solitário) que acreditam no amor e na felicidade. Mais ainda, um filme que alerta para os perigos que corremos quando estamos, ou ficamos, desatentos aos nossos corações, as pessoas que amamos e, em último grau, a própria vida. ![]() Sempre haverá uma nova (quem sabe última) chance para ser feliz, basta você se permitir isso. Esse é o grande dilema da história contada, com muita simpatia, por Harvey Shine (Dustin Hoffman) e Kate Walker (Emma Thompson). Há pouco tempo descobri que essa é a mais pura verdade. Podemos ser felizes, Basta estarmos na mesma sintonia e acreditarmos ser possível. De um lado temos Harvey, um compositor de Jingles que vive solitário em Nova York repleto de problemas da contemporaneidade. Com o seu emprego em risco e se vendo “obrigado” a viajar para Londres para acompanhar o casamento da filha Susan (Liane Balaban), percebe que a distância entre eles, causada, sobretudo, pelas escolhas que fizera no passado, é tão grande que parece ser instransponível. Do outro lado vive Kate, funcionária do Departamento de Estatísticas Nacionais no aeroporto de Londres, solteirona e com uma mãe neurótica que vive angustiada com a solteirice da filha e preocupada com o vizinho (um “serial killer” em potencial - risos). Apesar do esforço das suas amigas de trabalho, a vida de Kate permanece a mesma. Uma chatice. Com as suas vidas aparentemente ajustadas, ou seria desajustadas, Kate e Harvey parecem não estar dispostos a correrem riscos. Em conseqüência acabam dizendo não para a vida. E vivendo a solidão dos nossos tempos. Uma solidão repleta de pessoas ao redor. Como um bom romance, a casualidade ou o destino, diriam mais uma vez os românticos de plantão que foi o destino, os dois se encontram e acabam se aproximando e, diferentemente das outras experiências, se permitem sorrir para a vida e arriscar um pouco mais. Numa mesma sintonia os encontros e desencontros de Kate e Harvey promovem momentos emocionantes. O filme nos ensina que devemos permitir o amor, que devemos amar mais intensamente e nos esforçar para não perder as pessoas que amamos. Atravessar a cidade, ou o estado se necessário, para viver algo especial é apenas permitir que alguma coisa especial possa vir a acontecer. A reconquista da filha e a aproximação entre os personagens principais são marcadas pela verdade e pela coragem de arriscar. Dessa forma, a angústia e a solidão de Kate e Harvey são convertidas em momentos prazer e magia. Ou seja, o diretor e roteirista, Joel Hopkins, apostou num romance fácil e gostoso de assistir. Com um roteiro simples o filme fala da solidão contando uma boa história de amor. Sem muita complexidade e com boas atuações o filme dá um bom puxão de orelhas nos que vivem sem olhar ao seu redor. Devemos estar atentos às surpresas que a vida nos apresenta e, fundamentalmente, nos permitir a felicidade. Abraço para todos Nos encontramos por aí. Agora, Atravessando a cidade e permitindo a felicidade. Em 29 de junho de 2009 Filme: Jean Charles – Drama - Tempo de Duração: 90 minutos (Brasil / Inglaterra– 2009) Direção: Henrique Goldman Alegria e medo É comum encontrarmos amigos que vivem, ou viveram, o sonho de ir para o exterior ganhar a vida. Entretanto, no afã de viver uma nova experiência, esquecemos que também são comuns as histórias da dura jornada que levam os emigrantes quando chegam a terras desconhecidas. A alegria da realização convive com o medo da deportação e da prisão. Assim é a história de Jean Charles de Menezes e de milhões de estrangeiro que ganham o mundo em busca de seus sonhos. O filme, a 1ª co-produção entre Brasil e Inglaterra, conta a vida do mineiro Jean Charles, assassinado na estação do metrô de Stockwell na capital inglesa, em 22 de julho de 2005. Nascido na pequena cidade de Gonzaga, Jean vivia em Londres como eletricista e, literalmente, se virava para melhorar sua vida e a de seus primos (Vivian, Alex e Patrícia) que viviam com ele. ![]() Para além de contar um caso particular o filme retrata a dura experiência do estrangeiro. A dificuldade do idioma, o trabalho duro que têm que desempenhar, a espécie de “guetos” a que são limitados, sobretudo os ilegais, e a dificuldade de ter e fazer amigos locais. Estes são apenas alguns pontos mostrados no filme que transcendem a vida do Jovem mineiro. A solidão diante de tantas pessoas também é uma experiência desenvolvida no filme. O abandono dos familiares e amores, este último emblemático no personagem de Vivian (Vanessa Giacomo), parece, ao fim e ao cabo, pertencer a todos os estrangeiros. A parte dura de uma história que busca a felicidade. Selton Mello mais uma vez dá um show de interpretação. As alegrias, tristezas e angústias de Jean Charles são passadas com muita clareza e sensibilidade pelo ator. Da mesma forma, Vanessa Giácomo (Vivian), Luís Miranda (Alex) e Patrícia Armani (Patrícia – prima real de Jean Charles) dão conta do recado e contribuem de forma significativa para o bom trabalho. Morto com sete tiros na cabeça, Jean Charles foi acusado de fazer parte de um grupo terrorista. Notadamente, um erro da “melhor” policia do mundo custou não só a vida do jovem, mas também inverteu a história do “inocente até que se prove o contrário”. O filme mostra, utilizando trechos da época, as acusações contundentes que foram feitas antes mesmo de qualquer investigação. A condenação da vítima não se encerrou com a sua morte. Amigos e Familiares participaram do filme atuando como si próprios e contribuindo para a direção e roteiro com histórias da vida de Jean Charles. Enfim, um bom filme com momentos engraçados, mas que, acima de tudo, conta uma história que deve ser levada a sério. Nos encontramos por aí.... Em 14 de junho de 2009 Filme: Os Falsários – Drama - Tempo de Duração: 98 minutos (Áustria e Alemanha – 2007) Direção: Stefan Ruzowitzky Entre a dignidade e a morte ![]() Mais uma vez a Segunda Guerra e o Holocausto são utilizados como fontes para a produção de filmes sobre as experiências dos judeus durante o período do conflito mundial. No entanto, apesar do grande número de produções já existentes, verificamos um “movimento” para conseguir, de temáticas e cenários bem conhecidos, trazer novos fatos e experiências para o cinema. Os Falsários e Um ato de Liberdade( este último já debatido em outra ocasião neste Blog) parecem fazer parte deste “movimento”. Baseados em livros que contam histórias de experiências pouco conhecidas os dois filmes nos proporcionam bons debates sobre o tema. Repleto de dilemas morais, o filme, com uma ótima atuação de Karl Markovics (Salomon "Sally" Sorowitsch) que consegue dar intensidade aos dilemas da trama, conta a história de um grupo de judeus que sobreviveram ao holocausto por possuírem habilidades técnicas que, naquele momento, eram necessárias para os desdobramentos dos planos Nazistas (Operação Bernhard). É diante deste cenário que as principais reflexões surgem. Será compreensível contribuir com os carrascos do seu povo para manter-se vivo? Até que ponto podemos nos sentir culpados por estarmos vivos? Qual é a conceito de moral que podemos utilizar quando estamos na eminência da morte? Salomon, personagem principal do filme, é um famoso e astuto falsário que se envolve e promove todas estas questões. Os magníficos dotes de falsificador lhe proporcionaram mulheres, fama, dinheiro e, em última análise, viver. Foi como um verdadeiro bom vivant e totalmente envolvido com o mundo das falsificações que Sally (Salomon) foi preso e enviado ao campo de concentração. A boa vida fora transformada em tormento. Nem herói, nem vilão. O ponto central do filme está para além desta proposição. A ambigüidade de Sally é representativa neste aspecto. Um contraventor que acaba salvando vidas por possuir uma insuperável habilidade criminosa parece não se abalar com as mortes de judeus que ocorrem do outro lado do muro. Enclausurado na Gaiola de Ouro (lugar onde ficaram presos os judeus que tinham as habilidades necessárias para a execução da Operação Bernhard) Sally cria uma espécie de terceiro lado. Existiam os judeus, que morriam do lado de fora, os alemães, protagonistas do terror, e os falsários, que dependiam da própria eficiência para sobreviver. Um processo doloroso, para alguns, mas eficiente na medida em que manteve aqueles homens vivos. Neste sentido, seria possível contribuir para os nazistas sem perder a dignidade? Essa questão assombrava Adolf Burger (August Diehl) a todo o momento. Vivendo entre a humilhação e a necessidade de sobreviver os falsários viviam uma grande dor psicológica e moral. Burger foi o responsável pelo atraso na produção dos dólares falsos e pelos principais questionamentos a Sally. Tal fato foi exaltado com grande valor moral ao final da guerra. Entretanto, naquele momento colocava todo o grupo em risco. Ademais, apesar de questionar as atitudes de Sally, Burger não deixou de utilizar as vantagens conseguidas com o processo de falsificação. Enfim, não faltaram ambigüidades. ![]() Mesmo tratando de um tema recorrente, Os Falsário traz novas e boas reflexões. Vale a pena ir conferir. Encontro vocês no cinema!!! Em 15 de junho de 2009 Filme: A Mulher Invisível – Comédia - Tempo de Duração: 105 minutos (Brasil – 2009) Direção: Cláudio Torres Só mesmo em filme... rs rs rs ![]() Cláudio Torres, o mesmo de O Redentor (2004) e A mulher do Meu Amigo (2008) consegue trabalhar muito bem com as máximas que todos nós já conhecemos. Apesar de algumas vezes o resultado dos diálogos serem um pouco óbvios, a direção consegue atingir um bom resultado cômico. Pedro (Selton Mello) é abandonado pela esposa por amar demais. Notem, por amar demais. Nada mais contemporâneo, diante da obsolescência das relações, amar demais passou a ser um problema. Marina (Maria Luísa Mendonça), a esposa, diz que quer correr perigo e troca o apaixonado marido por um Alemão que conheceu num congresso em Fortaleza (ps. O Simpósio Nacional de História – ANPUH – este ano será em fortaleza, espero que não cause muitos danos). Diante da perda, Pedro se isola e passa a viver a solidão em toda a sua potencialidade. Carlos (Vladimir Brichta) encarna o papel do melhor amigo, notadamente reforçando a máxima do amigo “pegador” que não acredita no casamento, e ajuda Pedro a sair da lama. Claro que para isso outras mulheres são fundamentais. O Problema é que todas que aparecem na vida de Pedro são normais, ou melhor, imperfeitas, e não agradam. Afinal, estamos sempre procurando algo perfeito, só esquecemos que nós mesmos não somos. Num outro momento de grande depressão, eis que aparece Amanda (Luana Piovani). Perfeita. Sim, podem acreditar, perfeita mesmo. Utilizando mais uma idéia batida do “nosso” fetiche cotidiano, da vizinha linda e solteira que vai a sua casa lhe pedir açúcar e você acaba com ela em sua cama, o filme dá uma virada e, algumas vezes, a beleza da protagonista assume o lugar central na tela. O filme, neste sentido, é repleto de clichês. O homem apaixonado e, como conseqüência, bobo. O garanhão que ao final descobre o amor. A mulher mal amada casada com um homem tosco que vive a procura do grande amor romântico e, principalmente, a idéia de que a mulher ideal seja aquela que gosta de futebol, não sente ciúmes, é bonita, gostosa e boa de cama. Ufa...eta essa tal mulher ideal, onde encontramos uma dessa, hein.... ![]() Brincadeiras a parte, o filme não traz nada de novo. Mas, boas atuações, sobretudo do Selton Mello, garantem um bom espetáculo. Desculpem reforçar, mais a beleza de Luana também é um boa garantia. Filme: Garapa – Documentário - Tempo de Duração: 110 minutos (Brasil – 2009) Direção: José Padilha A obscenidade da Fome Se retirarmos a representatividade sexual da palavra pornografia, poderíamos dizer que José Padilha e sua equipe fizeram um documentário pornográfico da fome. Com inúmeras tomadas em enquadramentos bem fechados, a película parece ter sido feita para chocar, provocar, ferir, ou, em última instância, horrorizar os espectadores. Assisti ao documentário acompanhado de pelo menos 50 pessoas, e - diferentemente de outras experiências - o término da exibição foi seguido por um silêncio sepulcral. Todos saímos da sala em silêncio e, ao fim e ao cabo, parecia que José Padilha tinha alcançado o seu objetivo. O documentário segue algumas características bem interessantes. Gravado em PB (preto e branco) e sem trilha sonora a obra parece querer deixar claro o universo em que iremos mergulhar. A fome não é colorida, nem tampouco precisa de acompanhamento musical. Ela é dura, cruel e está a nossa volta. Quase sem interferências dos profissionais envolvidos, a obra apresenta de forma didática o cenário da fome no Brasil. Neste sentido, vale ressaltar que apenas faz uma apresentação. Podemos dizer que, diante de uma sociedade do espetáculo, apenas torna a fome mais um objeto de espetacularização. Nada mais do que isso. Parece comum, levando em conta os últimos três expressivos trabalhos de José Padilha, a forma espetacular como o diretor trata os temas gerais do país. Notório em 174 (exclusão social) e Tropa de Elite (violência e desestrutura do Estado) e ratificado em Garapa (fome e miséria) a espetacularização das mazelas brasileiras parece ter se tornado a principal fonte de inspiração do diretor. Mais uma vez, assim como nos outros filmes, as classes média e alta são, ou pelo menos deveriam ser, colocadas para pensar. Há sempre uma subliminar culpabilidade ou, na melhor das hipóteses, um provocador mal-estar proporcionado com as produções. “Saímos” sempre com algumas questões em mente. Algo como: também temos culpa desse cenário? O capitão Nascimento está certo? Mas, como todo espetáculo, depois da praça de alimentação ou mesmo do bate papo no carro, aguardamos apreensivo pelo próximo. Gravado no Ceará e tendo como figura central a mulher, o documentário traça um panorama “geral” da fome e reforça algumas características da família brasileira. A primeira delas é a importância da mulher para a organização do lar. A segunda, a meu ver a mais complicada, diretamente ligada à natalidade, o diretor parece querer se redimir com os seus pares sociais. Os questionamentos feitos na parte final do documentário interrompem a linearidade e estrutura do trabalho e, sobretudo, acaba promovendo uma culpabilidade até então improvável. Quando se questiona as mulheres quanto ao que elas estão fazendo para se prevenir ou da dificuldade de ter filhos e alimenta-los, verificamos uma inversão dos papéis. Antes vítimas, agora culpadas. Parece ter chegado à hora de perdoar as classes média e alta. Afinal porque elas não param de ter filhos. Enfim, as famílias de Rosa, Robertina e Lúcia, a partir da “exploração” de todas as suas dores, se tornaram “famosas” com o documentário. Resta saber se o retorno financeiro será equivalente ao do Capitão Nascimento. E AÍ, Vamos ao cinema??? Vejo vocês lá !!! Filme: Defiance (Um Ato de Liberdade) - Drama - Tempo de Duração: 137 minutos (EUA – 2008) Direção: Edward Zwick O desafio de sobreviver entre a bravura e a vingança O mesmo diretor de Diamante de Sangue (2006) e O Último Samurai (2003) retorna a telona contando o drama dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Baseado no livro de Petter Duffy, The Bielski Brothers: The True Story of Three Men who Defied the Nazis, Saved 1,200 Jews and Built a Village in the Forest (Os Irmãos Bielski: A História Real de Três Homens que Desafiaram os Nazistas, Salvaram 1,2 mil Judeus e Construíram uma Aldeia na Floresta) o filme conta a história de três irmãos que ao tentarem sobreviver as investidas devastadoras da Alemanha Nazista acabam liderando um enorme grupo de judeus dentro de uma floreta na Bielorrúsia. A vida dos irmãos Bielski, Tuvia (Daniel Craig), Zus (Liev Schreiber), Asael (Janie Bell) e o pequeno Aron (George MacKay), fazendeiros judeus do interior da Bielorrúsia, retratada em filme através de uma grande montagem cinematográfica, mostra de forma primorosa o esforço dos judeus para sobreviverem à aniquilação gratuita do exército alemão. Notadamente marcado pela figura do irmão mais velho, Tuvia Bieslski, o filme aponta para alguns dramas de quem vive a experiência de uma grande e dolorosa tragédia. Após terem os pais assassinados e fugirem para a floresta, Tuvia retorna para se vingar e consegue matar os algozes de sua família. Tal fato gera no primogênito um grande mal estar que, a partir daquele momento, se esforça em não mais matar “gratuitamente”. Desse modo, Zus, o segundo na hierarquia familiar, busca legitimidade na ação do seu irmão para também poder vingar a morte de sua família (esposa e filha) e acaba apresentando um “novo” caminho para a resistência. No enfrentamento dos irmãos mais velhos, dois pontos são colocados. O primeiro é sobre a forma de resistência que será implantada pelo grupo de judeus que fugiam para a floresta. Tuvia optou pela resistência “pacífica”. Manter o maior número de judeus vivos seria o grande objetivo do seu trabalho como líder. Enquanto Zus, ao contrário, depois de algumas instabilidades, preferiu aderir ao enfretamento direto e com mais alguns companheiros de acampamento se aliou à frente Russa e partiu para o conflito. O segundo ponto, a meu ver o de maior sensibilidade, gira em torno da legitimidade para matar. Até que ponto uma tragédia nos dá o direito de também matar? Será gratuito matar aqueles que mataram seus pais? Matar nos torna animais ou heróis? Quais são os reais limites do homem? Conseguir da conta desta ambiguidade é o grande desafio colocado pelo filme. Daniel Craig, em grande atuação, consegue dar conta dessa proposta. Os judeus que são vitimizados pelas circunstâncias, são os mesmo que matam um soldado alemão capturado e desarmado. Tudo ocorre sobre o olhar frio e a passividade de Tuvia. Ou seja, O mesmo que reprova a sede de vingança do irmão (Zus) se coloca inerte quando homens e mulheres, sobre o seu “comando”, matam com as próprias mãos seu inimigo. Será que conseguiríamos apontar boas e suficientes justificativas para legitimar essa morte? Será necessário fazer isso? O filme aponta também para outros aspectos interessantes. Podemos destacar, neste sentido, a dinâmica interna vivenciada dentro do grupo dos fugitivos. Malgrado ocuparem o mesmo lado, judeus combatentes começaram a requisitar regalias frente aos não-combatentes. Neste aspecto, a figura messiânica de Tuvia, com a “aprovação” do restante do grupo, mata a sangue frio o seu opositor, também judeu. A experiência do seu irmão Zus no exército russo, também colabora para um entendimento mais complexo desta mesma história. Um dos homens que acompanha Zus foi espancado e humilhado por um oficial russo por ser judeu, ainda que estivessem lutando do mesmo lado. Enfim, Apesar dos temas holocausto, Nazismo e Judeus serem recorrentes na cinematografia mundial, UM ATO DE LIBERDADE é uma ótima opção para quem quer ir ao cinema e assistir a um bom filme. Fundamentalmente por apresentar ótimas atuações, bem como um grupo de judeus (marcado pelos irmãos Bieslski) e a sua experiência na Bielorrússia até então desconhecidas do grande público e, sobretudo, por distender a compreensão humana e apontar momentos onde valores tão sólidos na sociedade são invertidos e legitimados com rápida aprovação. De olho nos lançamentos, Seguimos na telona !!!! Terceira Quinzena - Abril Filme: Tony Manero – Drama - Tempo de Duração: 97 minutos (Chile – 2008) Direção: Pablo Larrain Dançando, matando e falando sobre ditadura O filme de Pablo Larrain apresenta a história tosca de Raúl Peralta (Alfredo Castro), um fascinado por Tony Manero (personagem de John Travolta em Os embalos de sábado à noite - Saturday Night Fever, 1977) tendo como pano de fundo a ditadura de Pinochet no Chile. Para além dos aspectos de facínora de Raúl, o filme destaca o caráter sombrio que a cidade de Santiago vivencia nos anos do regime ditatorial. Tal fato fica notório em dois aspectos fundamentais. O primeiro, envolve a iluminação do filme. Grande parte do filme é feito com pouca iluminação, atribuindo um tom ameaçador ao ambiente em que é circunscrito o filme. Neste sentido, Quando filmado nas ruas, apesar da luminosidade, o tom ameaçador da ausência de luz é substituído por personagens sempre envolvidos em um clima de tensão (correndo pelos cantos, militares pelas ruas, perseguições e violência). O segundo aspecto é visto na própria representação da cidade. Uma cidade vazia e, sobretudo, dura com aqueles que arriscam andar pelas suas ruas. A alternância destes dois aspectos marca o filme de maneira clara sobre o ambiente vivenciado na ditadura chilena. Pablo Larrain, e toda a sua paixão por Tony Manero, nos servem como ponto de partida para pensarmos sobre o ambiente geral do Estado. A violência gratuita e, fundamentalmente, “justificada” quando empregada para alcançar seus objetivos, tão emblemáticas no personagem central, simbolizam bem adequadamente o estado “doentio” em que o país se encontra. Obsessão e perversão dão o toque freudiano ao filme. Os americanos não ficam de fora da película. Representado pelo ambiente da “discoteque”, marcada pela falta de perspectivas, o ambiente americanizado é retratado através do concurso de imitações e da própria figura de Tony Manero. Ou seja, em ambos os casos, simulacros dos modelos americanos que “contaminam” a América Latina naquele período. A vitória no concurso de imitadores consagraria Raúl. Seria o Gozo mais espetacular. No entanto, o vazio da derrota e o final repentino do filme nos levam ao abismo da condição humana, bem como a imaginar a manutenção dos dramas do Estado de Sítio proclamado por Pinochet. A derrota, o olhar final e doentio de Raúl apontam o caminho do personagem. Ao mesmo tempo em que frases como: “Já é muito tarde pra sonhar” e “não podemos falar mal do governo” mostram a ausência de perspectiva para o cidadão. Enfim, apesar de transitar entre tosco e o grosseiro, o filme levanta boas reflexões sobre o ambiente e as experiências da ditadura no Chile. Filme: Divã – Comédia - Tempo de Duração: 93 minutos (Brasil – 2009) Direção: José Alvarenga Jr A metamorfose da vida. A comédia estrelada por Lília Cabral (Mercedes) além de divertidíssima nos leva a refletir sobre as nossas vidas. Ao som de rapte-me camaleoa, de Caetano Veloso, o filme já inicia dando o tom do que poderíamos chamar de drama particular de cada um. Todos precisamos de um analista, já diria uma grande amiga. Com a Mercedes não foi diferente. Não sabendo por que, aos 40 anos, casada e com dois filhos, tendo uma vida rotulada como “perfeita”, procura um analista. A partir daí os passos e descompassos de Mercedes, com muito humor, nos mostra a complexidade da vida. Notadamente, não só de risos vive o homem e, assim sendo, a dor se torna também uma marca do filme. Afinal, não há mudanças sem dor. Neste sentido, a comédia transcende o habitual, dos risos rasgados e explícitos, e sugeri boas reflexões sobre as mudanças e tudo aquilo que a vida pode nos propor, ou mesmo impor. Não irei entrar no debate do filme ser novelesco ou não, o fato é que a obra consegue de maneira muito eficaz dialogar com o público. Boas risadas são garantidas. Por apresentar temáticas bem comuns ao cotidiano de um casal contemporâneo (intimidades desgastadas, monotonia sexual, futebol versus discutir relação, a dúvida quanto a ser desejada depois dos 40 e formas de lidar com a traição) o filme se torna leve e, fundamentalmente, compreensível. Nada fica no obscuro. Desse modo, o sucesso da peça, protagonizado também pela Lília Cabral, pode ser confirmado pelo filme. Quanto ao elenco, podemos dizer que há uma ótima sintonia. Pouco importa serem na maioria atores da Globo. José Mayer(Gustavo), Alexandra Richter (Mônica), Cauã Reymond (Murilo), Reynaldo Gianecchini (Theo) Eduardo Lago (Carlos Ernesto) e Paulo Gustavo (René) deram um bom clima ao filme. Por fim, o livro de Martha Medeiros tem gerado bons frutos (peça e filme). A torcida é para que o cinema brasileiro continue nesse caminho produzindo bons filmes, seja como comédia ou em qualquer outro gênero. Segunda Quinzena - Abril The Visitor - O VISTANTE - Direção: Thomas McCarthy - (EUA - 2008) – O filme retrata a história de um solitário professor universitário que ao ser enviado para New York, para apresentação de um trabalho, vê a sua vida mudar completamente de rumo. Marcado pela arrogância, mentira e pela solidão o professor Walter Vale (Richard Jenkins) representa um acadêmico insensível na universidade onde leciona. Notadamente recluso após a morte da sua esposa, Walter vê nas aulas de piano um elo com o passado. Caracterizado por uma nostalgia e por uma frieza sem tamanho, balizados pelo som “triste” de um piano ao fundo e pela fotografia de uma pequena cidade americana, o cenário inicial do filme é primoroso na construção do personagem vivido por Jenkins. O mais interessante é que todo este cenário é reconstruído com a ida de Walter para New York. Resolvendo ocupar o seu apartamento, abandonado há vários meses, Walter se depara com um casal de emigrantes ilegais, vividos por Haaz Sleiman (Tarek Khalil) e Danai Jekesai Gurira (Zainab), que o faz transformar completamente o seu olhar para vida. A segunda parte do filme é momento das grandes mudanças e onde alguns pontos de reflexão podem ser apontados. A primeira grande alteração ocorre com o professor. O primeiro sorriso do personagem somente acontece após o contato com os imigrantes. Neste sentido, a presença do outro, do diferente, é confirmada como fonte das mudanças do indivíduo. Há ainda, um rompimento com o passado de tristeza marcado pela musicalidade e alegria dos batuques africanos e, significativamente, pela troca dos óculos feita pelo professor (este último parece apontar para a emergência de um novo olhar para a vida). Chama a atenção também a reflexão dos imigrantes no país da “liberdade”. O imigrante será sempre um imigrante, nem o green card retira dele o estigma do estrangeiro. Enfim, a ótima atuação de Richard Jenkins (indicado ao oscar de melhor ator - 2009), muito superior a realizada na comédia QUEIME DEPOIS DE LER, dá um bom suporte ao filme e faz com O VISITANTE seja um bom motivo para ir ao cinema. Zack and Miri Make a Porno – (Pagando Bem, Que Mal Tem?) - Direção:Kevin Smith – (EUA – 2008) – Uma garantia de boas gargalhadas. A comédia retrata a vida de dois amigos, Zack Brown (Seth Rogen) e Miriam Linky (Elizabeth Banks), que diante de uma grande dificuldade financeira resolvem reunir alguns amigos e fazer um filme pornô. O que pode parecer inusitado, quanto à escolha da solução de um problema financeiro, revela uma realidade bem próxima de alguns falidos “famosos” brasileiros. Nos últimos anos há um crescente movimento em tornar celebridades falidas em estrelas do mundo pornô (Alexandre Frota, Rita Cadilac, Gretchen, entre outros são “bons” exemplos). Na verdade, diferentemente do que retrata o filme, a dificuldade nem precisa ser tão devastadora assim. Outro destaque do filme gira em torno das potencialidades das novas tecnologias (especialmente celular e internet). Até mesmo um pequeno vídeo filmado com um celular pode tornar uma pessoa “famosa” se este for parar na internet. Bem, apesar da tradicional descoberta do amor, já esperada entre os protagonistas, o filme aponta para questões bem relevantes da contemporaneidade. Além, é claro, de proporcionar boas risadas. CHE - Primeira Parte - Direção: Steven Soderbergh - (EUA / França / Espanha 2008) Sendo um dos personagens históricos mais vendidos no mundo, Ernesto Guevara continua em alta. Che, part one, retrata a chegada do médico argentino a Cuba com o intuito de ajudar Fidel Castro contra o governo de Fulgêncio Batista. Produzida em duas partes a obra completa vai percorrer os anos da revolução cubana, bem como os seus desdobramentos. Bem diferente dos comuns e panfletários filmes e documentários que são produzidos acerca da figura Che, o filme apresenta uma ótima sobriedade e, notadamente, avança na apresentação do homem Ernesto Guevara (foge da enquadramento simplista do mito). Muito bem interpretado por Benicio Del Toro (Ernesto "Che" Guevara), o personagem central é retratado longe do maniqueísmo habitual e, algumas vezes, tem a sua importância dissolvida diante dos desdobramentos do próprio conflito. Steven Soderbergh, o mesmo de Traffic (2000), parece ter conseguido apresentar um novo e interessante olhar sobre a vida do guerrilheiro e médico Che. Temos agora que aguardar a segunda parte para avançar no debate. Antes de terminar, tenho que ressaltar a presença de Demián Bichir, como Fidel Castro e Rodrigo Santoro, como Raul Castro. Ambos com passagens bem rápidas, não comprometedoras, pelo filme. Por Ricardo P. dos Santos Historiador Primeira Quinzena – 1 a 15 de Abril PALAVRA ENCANTADA – Direção de Helena Solberg - (Brasil -2009 – 86 minutos) Um belíssimo documentário sobre o universo que podemos desenvolver a partir da palavra, Seja cantada ou falada. Os depoimentos são muito interessantes e, algumas vezes, reveladores. Daria um grande destaque, para além de Chico Buarque e Lenine, a participação de Tom Zé (foi genial) e as entrevistas com Caetano Veloso (reprodução de entrevistas da época dos grandes festivais. A palavra desbunde fica bem clara com Caetano). A produção consegue um ótimo resultado, sobretudo por ter apresentado uma grande variedade de depoimentos. Para quem puder vale assistir depois uma produção chamada Bananas is my business da mesma diretora. Destaque também para as imagens dos antigos carnavais, uma fonte de boas reflexões. Enfim, Poesia, música e cinema numa reunião que deu certo. GRAN TORINO - Dirigido e Produzido por Clint Eastwood - (EUA/Austrália – 2009 - 116 minutos) – Completando 79 anos agora no dia 31 de maio Clint Eastwood mantém o vigor dos grandes papéis. Depois de mais de 50 filmes sua atuação é impecável. Walt Kowalski (Clint E.), Personagem central do drama, é um veterano de Guerra, conservador que passa a conviver com vizinhos imigrantes e tem a sua vida transformada. Um homem de difícil acesso e carregado pelas heranças da Guerra da Coréia Walt serve como bom pano de fundo para velhas máximas do cinema americano. O herói nativo, e por isso legítimo, será aquele que potencialmente irá resolver os problemas da cidade/bairro/país, O durão da Guerra que se sensibiliza com as surpresas da vida, bem como o estrangeiro como fonte dos problemas das cidades americanas são apenas alguns pontos que podem ascender no filme. No entanto, Gran Torino surpreende com as belíssimas atuações e com o desdobramento da história. ENTRE OS MUROS DA ESCOLA - Entre les murs - Laurent Cantet (França – 2007 – 128 minutos) Baseado no livro do diretor/ator Laurent Cantet o filme é um ótimo retrato da educação pelo mundo. Apesar de tratar de um microcosmo bem pontual, a experiência do autor numa escola da periferia francesa, o filme tem um realismo muito convincente. Tal fato potencializa boas reflexões comparadas (periferia Francesa versus periferia brasileira é uma delas). A atuação dos jovens (não)atores é surpreendente. A fidelidade como é representada a sala de aula nos remete a boas e necessárias indagações. Diferentemente do que costumamos ver em filmes onde a escola é o cenário central (professor salvando turmas/ turma de rebeldes se regenerando/ amores entre jovens e o caminho para a universidade) Entre os muros da escola apresenta uma complexidade bem próxima daquilo que assistimos nos nossos dias. Vale atentar para os diálogos entre os professores, notadamente o que acontece na sala dos professores e na reunião dos mesmos e, fundamentalmente, para questão da construção da identidade francesa, visível no debate entre alunos. O filme consegue ampliar e apresentar o drama da educação na contemporaneidade de forma muito contundente. Marcado pelo descaso dos alunos e por uma escola repleta de aspectos ultrapassados a obra nos remete a necessidade de pensarmos a educação, o jovem, o professor, a escola e, sobremaneira, as suas relações com o TEMPO PRESENTE. INÚTIL - (Useless) JIA ZHANG-KE - (China – 2007 – 81 minutos) – Severo. Sempre quiz utilizar essa palavra e, nesse filme, ela se adequou muito bem. Um filme com a métrica bem distante daquilo que estamos acostumados (filmes hollywoodianos/rápidos) é no mínimo uma nova experiência para aqueles que vão assistir. Lento, denso e com uma construção bem diferenciada, o filme apresenta o mundo da moda, ou melhor, da construção daquilo que chamamos de moda, em três esferas bem distintas (cenário industrial, atêlie, caseiro). A singularidade de cada um desses espaços e, fundamentalmente, o processo de alienação emergente sobre o resultado dos diferentes esforços ali empregados é, a meu ver, o mote central da obra. A consciência destes processos gera o grande eixo da reflexão. O que é moda??? Como se dá o processo de legitimidade desse campo tão abstrato? Quem define e quem fará a escolha daquilo que será moda??? Enfim, sem nenhum ator conhecido e, sobretudo, com uma construção na contra mão dos nossos dias velozes e furiosos o filme nos permite experimentar uma nova sensibilidade fílmica. Valeu Galera, Grande Abraço, Ricardo Bull - Nos encontramos por aí |